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O Reino Oculto - Capítulo 15

O Reino Oculto - Capítulo 15




CAPÍTULO 15

Na manhã seguinte, ao invés de pegar o costumeiro caminho em direção ao vale que dava no lago, tomou o caminho estreito de terra em direção à árvore. Se dera por vencido e queria que a anomalia que chamava de mão voltasse ao normal logo. Atravessou todo o campo e parou em frente a árvore por um instante, sem saber se batia palma ou pigarreava para se anunciar, quando ouviu um leve "entre" vindo lá de dentro. "É claro" pensou, sentiu-se irritado por pensar que precisava se anunciar para que ela soubesse que ele estava ali.
 - Que bom que veio - Eméreter sorria amigavelmente. - Sente-se. Espero que esteja bem, ouvi dizer que você tem aproveitado muito bem a vila durante as últimas semanas.
 - Você e Bast tem conversado muito sobre mim, aparentemente.
 - Bastian gosta muito de você. É natural que ele queira falar orgulhosamente sobre o seu bem estar e a companhia que faz a ele. E a sua companhia tem de fato feito muito bem à ele, é nítido. Fico muito satisfeita com isso, pois me preocupo com meu velho amigo.
 Graham apenas acenou a cabeça, sem saber o que dizer. Sentou-se.
 - Agora deixe-me ver sua mão - disse delicada, erguendo as suas próprias.
Relutante, Graham colocou sua mão direita sobre as de Eméreter. Parecia mais uma grotesca luva de couro quatro vezes maior do que as mãos finas e delicadas da maga.
 - Nunca vi uma mordida de Rashne dar um efeito desse - passava seu longo e fino dedo sobre a mordida. - Imagino que seja porque seu corpo não está habituado com esse tipo de animal, deixando a reação mais severa.
  Eméreter largou sua mão e virou-se para sua bancada, remexendo em suas coisas como se estivesse a procura de algo. Apanhou um pequeno instrumento fino e ergueu na altura de seus próprios olhos, o avaliando. Graham fitou o objeto com curiosidade. Era finíssimo e do comprimento de um dedo, parecia ser de algum tipo de metal. Constatou um leve arrepio percorrendo pelo seu corpo ao tentar imaginar o que ela faria com o instrumento. Sentiu-se aliviado quando a viu largando o objeto na bancada para sair resmungando consigo mesma, como se tivesse tido uma ideia melhor. Foi até a abertura da árvore e puxou duas folhas redondinhas dos galhos e voltou para dentro. Colocou as folhas dentro de um pequeno pilão de madeira, apanhou uma ampola de um conjunto com várias outras ampolas de várias cores. Escolheu uma com um líquido transparente e o despejou no pilão. Socou tudo com agilidade e se aproximou de Graham.
  - Estique seu braço, assim - ela despejou o líquido resultante da mistura em cima dos furos em sua mão, que logo foi absorvido pela sua pele, numa forma antinatural. Retirou a pasta de folhas que sobrou no fundo e colocou em cima da mordida. - Deixe assim por alguns minutinhos.
 - Obrigado - respondeu observando sua mão com curiosidade. Ela já estava seca, como se nada tivesse sido derramado sobre ela.
 - Essas folhas têm um alto poder de cura e seu corpo o absorveu rapidamente, isso é bom. Devia ter vindo o quanto antes até mim, não se sabe as reações que seu corpo pode ter em um ambiente tão diferente do que estava habituado, como esse.
 Graham ergueu o olhar para Eméreter.
 - Achei que fosse se desagradar com a minha presença, que eu a tivesse ofendido seriamente.
 Eméreter respirou fundo. Descansando o pilão em seu balcão, cruzou os braços, descansadamente.
 - Ou por que eu feri o seu orgulho? Não guardo rancores, Graham. Isso é algo que você deveria aprender também. A vida é curta demais para ocupar a mente com esse tipo de coisas.
 - Curta até mesmo para vocês, magos?
Silêncio.
 - Até mesmo para mim - respondeu, por fim.
 Os dois se encararam, num silêncio cheio de significados.
  - Bast disse que você quer me arrumar um professor - disse, por fim. - Por que eu precisaria de um professor?
  - Olhe para a sua mão e deixe que ela lhe diga. Informação é tudo e ela deve ser passada para fazer valer a sua existência. Já que você ficará aqui conosco, é bom que aprenda tudo o que precisa saber e o que precisa evitar. Apenas quero alguém para lhe explicar como as coisas funcionam por aqui. Você pode ser um ótimo ajudante para Bastian, mas precisa conhecer algumas coisas antes.
 - Você quer que eu me torne como um daqueles seus aprendizes?
 Eméreter riu.
 - Não, por favor. É diferente. Veja bem, estou lhe dando uma chance de ter uma vida nova aqui, assim como dei para essas pessoas anos atrás. Assim como eu deveria ter dado ao seu irmão - Eméreter pausou suavemente, para Graham absorver suas últimas palavras. - No entanto, você tem a opção de recusar também, não estou lhe obrigando a nada. Mas saiba que recusar conhecimento não é algo muito sábio a se fazer.
 Graham baixou o olhar para a sua mão. Estava completamente desinchada agora e sua cor havia voltado ao normal. Retirou a pastinha de folhas que estava completamente seca e viu apenas dois pequeninos furos, quase que imperceptíveis, em sua mão. Pensou em como poderia ter evitado esse desastre e dor, e em como não queria parecer como alguém de fora. Pensou em sua falta de habilidade com os cuidados básicos, principalmente envolvendo plantas. Pensou em tudo o que seu orgulho privou James de conhecer. Olhou novamente para Eméreter.
 - Quando eu começo?
O Reino Oculto - Capítulo 14

O Reino Oculto - Capítulo 14




CAPÍTULO 14


  O grande recinto que se assemelhava a um pub era cheio de mesas redondas espalhadas pelo local e estava sempre cheio. Pessoas entravam oferecendo alguns objetos, partes de animais para ensopados e outros apenas sussurravam segredos ao ouvido de Migeal, dono do pub. Sentavam-se às mesas e eram servidos do equivalente ao que fora oferecido.
  As tarefas de Graham não passavam de ser cordial com os clientes, manter o local limpo e servir as bebidas no balcão. Era fácil demais e não tomava nenhum esforço de sua pessoa. Apenas lutou nos primeiros dias para conhecer todas as bebidas diferentes que serviam ali. Entre elas, o arake extra mélico e o airag de cabra, além do bom e velho vinho de romã, whisky, cerveja e hidromel. Bastian lhe dera uma longa aula em casa para que ele não parecesse tão deslocado do local quanto realmente era - ele não havia revelado a Migeal que Graham viera de fora dos limites da vila.
  Migeal era um homem corpulento, alto e sério, porém muito amigável. Sua esposa, Agda, e sua pequena filha, Dulce, o visitavam e passavam o dia ajudando nos afazeres do pub às vezes, como Migael lhe avisara. No primeiro dia de sua visita, Agda se mostrou muito feliz ao ver que o esposo havia conseguido alguém para ajudar com o atendimento.
  - É muita bondade sua se oferecer para nos ajudar - dizia numa alegre satisfação. - Assim tenho mais tempo para cuidar da Duc. Falando nela, onde a danadinha se enfiou? - dava voltas pelas mesas se abaixando, a procura de algum sinal da filha.
  - Agda, não me diga que ela trouxe aquilo de novo - Migeal tinha a voz pesada com o desânimo.
  - Eu não vou dizer nada - a mulher ergueu seu rosto acima de uma das mesas, com um olhar de culpa, porém sem remorso.
  - Dulce - o homem resmungou indo em direção à cozinha.
  - Você sabe como ela é apegada, Migeal - disse a mulher delicadamente, seguindo o marido.
  Graham ficou sozinho no balcão, um pouco nervoso. Estava um pouco cedo e não havia praticamente ninguém no pub. Aproveitou o tempo de sobra para tirar o pó dos copos pela terceira vez, poliu e os dispôs simetricamente organizados em cima do balcão, esperando a chegada dos primeiros clientes. Colocou os rótulos das bebidas atrás de si virado para o lado correto e se abaixou para ver se havia alguma coisa a mais fora do lugar. Tudo parecia em ordem. Copos reservas, tigelas de madeiras, de cerâmica, panos reservas para limpeza, cestas com frutas e um grande cesto com amendoim, que estava se mexendo. Graham se levantou, satisfeito, e olhou novamente para o cesto, com os olhos arregalados. Ele não poderia estar se mexendo, poderia? Após observar longamente o cesto, que agora encontrava-se imóvel, decidiu que vira coisas apenas em sua imaginação. Pôs-se a passar o pano aleatoriamente pelo balcão, quando, com um baque surdo, o cesto começou a rolar no chão espalhando todo o amendoim.
  Graham deu um pulo para trás com o coração batendo em sua garganta, uma mão em sua boca para não soltar um grito e a outra apertando com força a borda do balcão. Ficou encarando, gélido, o cesto caído inerte no chão. Recompondo-se, ele se abaixou lentamente para olhar o vão onde o cesto se encontrava segundos antes. Um grande vulto rosa se mexia soltando silvos agudos, vindo em sua direção. Graham, agindo por instinto, agitou o pano que segurava em suas mãos contra o animal que, ao sentir o pano chicotear contra suas costelas, avançou contra a mão de Graham, cravando suas garras e dentes na parte mais carnuda abaixo do polegar. Desta vez ele não conseguira se conter, gritou de dor e susto, caído no chão com a mão balançando no ar, tentando se livrar da mordida da criatura.
  - Lady Rashne! - uma voz aguda de criança cortou o aposento. - O que você está fazendo com a Lady Rashne? Solta ela.
  Numa confusão de corpos, Graham sentiu sua mão se livrar das garras e dentes. Sentou-se, assustado, aninhando sua mão atacada sob a mão boa e encarou uma garotinha de marias chiquinhas e o rosto em fúria. Em seus braços, acariciava, o que agora parecia, um pequenino animal de pelagem rosa que se assemelhava à um bichano comum, porém com as pernas mais curtas e com pequenos chifres sobressaindo a pelagem em sua cabeça. Com os olhos amarelos, ainda mostrava os dentes afiados para Graham.
  - Duc! Eu avisei para não trazer esse animal para o trabalho do papai - Migael apareceu de supetão, com Agda logo atrás, observando a cena com espanto. - Que gritaria foi essa?
  - Mas papai, eu não posso deixar Lady Rashne sozinha em casa! - protestou a menina num tom choroso.
  - Então você deveria cuidar melhor dela e não deixá-la solta por aí - disse Agda. - Venha com a mamãe, vamos achar um local seguro para a Lady Rashne.
  - Eu só queria escondê-la para que o papai não a achasse - choramingou a menina.
  As duas saíram em direção aos fundos do pub, deixando um Migael perplexo.
  - Não mando mais nem em meu próprio pub. Mas quem é que tem coragem de argumentar com mulheres decididas? - riu-se sozinho, encarando Graham ainda no chão. - Você está bem, amigo? Fizeram uma bela sujeira, não?
  - Estou bem, não se preocupe - levantou-se envergonhado. - Eu vou dar um jeito nisso rapidamente, não se preocupe. Eu sinto muito.
  Passou o dia sentindo uma leve dor ao redor dos dois furos em sua mão, e, onde fora arranhado, ardia como se estivesse em carne viva pelo fim do dia. Ao chegar em casa de noite, sua mão já estava levemente inchada.
  - Toda criança possui um Rashne! Eles são inofensivos! - ria-se Bastian, à mesa.
  - Não tem graça, Bast. Aquela criatura me atacou! Não temos esse tipo de animais de onde vim, eu levei um baita susto - Bastian ainda ria abertamente de Graham, que cedeu e riu de sua situação também. - Atacado por um animal de estimação de uma garotinha mimada. Migeal deve ter me achado um imbecil.
  Devoravam uma torta de maçãs verdes que Migael dera a Graham para levar para casa, como um pedido de desculpa pelo ocorrido. Graham lutava para comer com a mão esquerda, pois sua mão destra estava incrivelmente dolorida.
  - Como acha que vai estar para trabalhar amanhã? - Bastian apontava o garfo para a mão de Graham. - Sabe, mordida de Rashnes não costumam dar esse efeito nas pessoas.
  - Estará bem. Preciso apenas dormir e descansar e ela voltará ao normal.
  Mas ela não voltou ao normal. Estava inchando e ficando rígida, mas Graham não iria pedir licença de seu trabalho. Não queria mostrar a Migael que era fraco e dar indícios de que não era dali. Utilizou de blusas de mangas compridas para esconder sua mão inchada e se concentrava para usar apenas a mão esquerda, para não provocar dores na outra.
 Na noite seguinte, sua mão já estava tomando uma coloração roxa e inchando até perto do cotovelo, dando uma aparência grotesca ao seu braço.
 - Estive conversando com Eméreter essa manhã. Falávamos sobre você - anunciou Bastian, sentando-se na cadeira estofada ao lado de Graham.
 Graham, que estava esquentando água na lareira, ergueu os olhos do fogo para Bastian, numa mistura de curiosidade e espanto. Ainda não havia tido uma conversa com ela desde que a maga lhe falara sobre James. Bastian fixou o olhar no braço de Graham.
 - O que aconteceu com você ontem poderia ser mais grave. Aliás, esta mão parece de fato estar se revelando como algo grave.
 Graham sabia onde ele queria chegar, mas ele não estava querendo procurar Eméreter para curar sua mão. Queria qualquer desculpa para evitar estar sob o olhar dela novamente.
 - Não é nada demais - disse apenas, voltando seu olhar para o fogo. - Eu mesmo estou preparando um chá, irei me curar sozinho - despejou a água quente numa pequena tigela.
 Bastian se aproximou e cheirou o líquido amarelado.
 - Isto não é chá. É pura água com sal.
 - Na qual irei repousar minha mão para desinchar.
 - Talvez o conceito de chá seja diferente no seu reino - disse voltando para a sua cadeira. - Mas não seja tolo, Graham. Procure Eméreter, ela tratará da sua mão num piscar de olhos sem que você perceba. E além do mais, não era exatamente sobre isso que estávamos conversando.
 - Não? - perguntou curioso enquanto mergulhava sua mão na solução. - E o que seria?
 - Essa vila abriga coisas que poderiam ir além da sua imaginação. Vimos o que pode acontecer quando se lida com coisas que não sabemos como lidar - apontou para a mão de Graham descansando pateticamente dentro da tigela. - Você deveria ter o direito de conhecer e entender as coisas por aqui.
 - E não tenho? Posso andar livremente por onde eu quiser e conhecer o que eu quiser. E você me explica o que não entendo.
 - Não, não - abanou a mão displicentemente. - Um professor, queremos dizer.
 Graham riu, sem saber se deveria o levar a sério.
 - Um professor? Como uma criança?
 - Tem muito o que conhecer aqui e eu não sou a pessoa mais adequada para te ensinar. Eméreter insiste que você tenha um professor.
 - Por que ela insistiria? Por que ela faz questão de que eu conheça essa vila tão bem?
 - Ela deve ter as suas razões. Mas você deveria se alegrar, é oficialmente um de nós agora. E Eméreter quer se certificar disso - ria alegre.
 - E o que eu estarei aprendendo com esse professor?
 - Coisas como que tipo de animais que vivem aqui, quais você deveria evitar e porque, história do nosso povo, como as coisas funcionam e como lidar com as plantas, essas coisas todas. Você teria que conversar com ela saber exatamente o que iria aprender. Ela quer vê-lo amanhã cedo.
 Graham fechou a cara.
 - Vamos, você sabe que você quer - ria-se. - Não sei porque anda evitando ela. E se continuar com essa mão nessa água, irá precisar vê-la ainda essa noite - disse se retirando em direção à escada sem rodeios.
 Graham olhou para sua mão e a mordida havia passado de roxa para um azulado quase preto e sua mão inchado o dobro de seu tamanho anterior em contato com a água cheia de sal. Xingou baixinho para não deixar Bastian ouvir sua frustração.
O Reino Oculto - Capítulo 13

O Reino Oculto - Capítulo 13





CAPÍTULO 13


 Estava transtornado, sentia-se virado do avesso. Isso ia contra tudo o que ele acreditava. Como poderia seu irmão, James, ter sangue mágico? Por que ele? Quantos mais de sua família poderiam ser? Seu pai nunca soubera ou teria ele mantido segredo dele? Não, seu pai nunca faria isso. Ou faria? Eram dúvidas que nunca seriam respondidas, já que nem seu pai nem seu irmão estavam vivos para respondê-lo. Cerrou os punhos contra a parede, liberando sua fúria num grito mudo.
 Lutara toda a sua vida contra essa verdade. Sentia-se um grande idiota agora. Sentia-se ainda mais culpado pela morte de James, que crescera vendo-o detestar e abominar as histórias que ouviam, clamando orgulhosamente que não tinha o sangue infectado com magia. Será que algum dia ele quis lhe contar? Muito provável que tivesse se sentido tentado, porém ficara com medo de sua reação.
 Mas era seu irmão, jamais o deixaria de lado. Cuidaria dele como sempre prometera ao seu pai. Só esqueceu de deixar isso implícito, pois estava ocupado demais tentando recuperar seu lugar na corte. Lágrimas quentes e vergonhosas jorraram em seu rosto pelo seu irmão.
 Mas isso seria um problema para ele também, pensou logo após. Como ele poderia levar sua família de volta à corte se seu irmão fosse mesmo um bruxo? Preferiu não pensar sobre isso agora. Lavou seu rosto com água e se encarou num espelho velho e manchado. Seu nariz estava mais torto que o normal, o hematoma agora um pouco amarelado. Fazia um tempo desde que não encarava direito sua própria imagem. Uma espessa barba enchia seu rosto, e mesmo assim ainda podia-se ver onde os galhos apertara contra sua boca. Seus punhos cerraram-se com força novamente ao lembrar-se de Eméreter.
 - Você devia ter ido comemorar conosco - ouviu Bastian falar da cozinha. - Foi muito bonito. E farto também - ouviu a risada e baques surdos vindo da palma das mãos de Bastian contra sua própria barriga.
 Graham vira a festa que estavam tendo na praça central da vila. Todos pareciam estar lá, dançando e saudando o garoto. Porém Graham preferiu passar despercebido e ir direto para casa de Bastian, não estava emocionalmente bem para socializar. Desviou o olhar de seus olhos pesados no espelho e dirigiu-se até a cozinha. Bastian estava sentado à mesa com uma caneca de cerveja ainda em sua mão e outra à sua frente, ao lado de um pequeno barril de mesa.
 - Onde você passou durante todo esse tempo? Separei uma caneca para você, sirva-se.
 Graham sentou-se na cadeira vaga, bebendo de sua caneca.
 - Estive por aqui mesmo.
 - Bem, você perdeu uma festa e tanto - riu estridente.
 Graham ouviu pacientemente todos os relatos detalhados da festa sob o ponto de vista de um Bastian levemente embriagado. As comidas, as bebidas, as brincadeiras, as danças, as pinturas nas crianças, as adorações à Eméreter e orações aos seres que protegem a vila para não acontecer outra tragédia novamente. Graham apenas bebericava de sua caneca, sentindo-se pendurado em cada palavra de Bastian, esperando para ver se ele falaria novamente sobre os tais seres para os quais rezaram. Ficou tentado a perguntar, mas Bastian parecia estar mais interessado em devanear sobre como tirara a viúva Seline para dançar.
 Sentia um grande vazio a cada risada que dava com Bastian apenas por educação. Julgando que seria o mais sensato a se fazer, acompanhou Bastian escada acima até seus aposentos, enquanto este tagarelava agora sobre coisas que ele não entendia. Ao colocá-lo na cama, foi como um golpe fatal, a risada cessou de repente e em seguida o velho já estava ferrado no sono.
 Desceu a escada a passos leves, apanhou o pequeno barril da cozinha junto com sua caneca e afundou-se na cadeira estofada e aquecida, devido à lareira acesa, na pequena sala. O silêncio e a melancolia o rodeando novamente. Com os olhos vidrados no fogo da lareira, ele bebeu, imaginando se John já teria encontrado espaço em seu coração de criança para perdoar seu velho pai.

-

 Graham nunca conhecera nada além da região em que morava em seu próprio reino. Conhecia as terras que foram de seu pai, e que foram suas, posteriormente. Nada grande nem que desse orgulho, apenas com espaço para sua velha casa e algumas plantações. Conhecia as terras ao redor da sua. Maiores e com plantações mais fartas, que eram alvo constante de saqueadores, assim como a sua também. Aquela região era conhecida como as terras de ninguém, embora elas tivessem donos e esses tivessem que pagar impostos exorbitantes àqueles que a chamavam de as terras de ninguém.
 Conhecia também o bosque e a ruazinha que levava à pequena cidade, onde viajantes, cavaleiros e aventureiros paravam para comer, beber e dormir, sozinhos ou com a companhia de sua preferência. Na cidade, conhecia também os muros altos que cercavam a fortaleza real, que se erguia no alto para todos verem seu esplendor. Durante muitos anos, ficara naqueles portões pensando num jeito de poder entrar.
 Não conhecia os outros cantos do reino, que era enorme, segundo todos os viajantes que por lá passavam. Tantas terras e outros reinos inteiros conquistados no sangue para juntá-los num só. Um único rei comandando meio mundo. Graham não conheceu essas terras, não poderia dizer com suas próprias palavras qual a extensão delas. Mas não se importava agora, porque ele conhecia terras que seu rei nunca conhecera, nem conquistara. Era algo novo e ele que estava desbravando.
 Conforme os dias que passava ali, ia se apegando aos costumes e se encantando com as coisas novas que descobria. Descobriu que havia mais além da praça central. Havia plantações de trigo à oeste, de algodão mais ao sul e, após as pequenas montanhas, lagos e gramados verdes sob um sol extremamente agradável.
  E todos ali viviam de igual para igual. Seu comércio também não funcionava como no reino. Ali ninguém usava moedas, nunca ouviram falar. No lugar, usavam um sistema de trocas. Cada um chegava à um consenso devido ao tamanho e quantidade de alimento ou objeto envolvido na troca. Serviços também eram oferecidos com o mesmo sistema. Graham sentiu-se extremamente idiota por ter dado suas moedas à Bastian achando que elas teriam algum valor para ele. Cada um chegava ao fim da negociação com uma troca justa, a passo que ali não havia intrigas, roubos, discriminação ou injustiça. Mas também não havia contradições às ordens de Eméreter.
 Passava os dias acordando cedo pela manhã, andando pela praça, indo até as montanhas e passeando ao redor do lago após as montanhas. Levara um tempo até se sentir confortável para isso, pois apenas pensava nos tais cães selvagens, até que Bastian o garantira de que não aconteceria de novo. Mais ainda tomava o cuidado para não se aproximar demais da floresta. Sentia que um pouco de cautela não faria mal a ninguém.
 Em suas manhãs ali pelo lago, observando as pessoas andando sob o sol e fazendo seus desjejum entre amigos e familiares, ficava pensando na sua própria família lá do outro lado, longe de seu alcance. Era algo muito chocante o que Eméreter lhe revelara e a cada dia sentia um pouco mais de curiosidade sobre o que havia realmente acontecido com seus antepassados e quem eles eram. Mas deixava essa curiosidade acumular pouco a pouco, a cada manhã. Durante a tarde, ele esquecia essa curiosidade se ocupando com os afazeres num pub que descobrira ter a melhor cerveja e comida da praça. Limpava e organizava em troca de refeições grátis. O dono era um grande amigo de Bastian e Graham o pediu por essa oportunidade de se misturar com as pessoas e aos seus costumes.
 - Você sempre poderá comer e beber o quanto quiser aqui comigo. Não precisa oferecer seu trabalho a ninguém - argumentou Bastian.
 - Quero me sentir útil enquanto eu estiver por aqui - defendia-se Graham que, além disso, queria também fugir das habilidades culinárias não tão habilidosas do amigo sem querer ofendê-lo.
 Voltava para a casa de Bastian tarde da noite, trocavam suas experiências diárias e iam dormir. No dia seguinte, recomeçava tudo de novo.

O Reino Oculto - Capítulo 12

O Reino Oculto - Capítulo 12





CAPÍTULO 12


- Por que você não impediu o ataque? - perguntou Graham.
- Temos muito o que conversar - disse apenas. - Por que não façamos aqui dentro? 
Entrou na árvore e Graham a seguiu. Ao passar pelo arco de madeira, sentiu novamente aquele cheiro amadeirado preenchendo sua cabeça. Eméreter indicou um dos bancos para Graham se sentar e apanhou um balde com água e retirou um pano de dentro. 
- Ontem você disse ao Bastian que usaria esse altar ainda hoje pela manhã. Se sabia o que iria acontecer, por que não impediu a pobre criança de ser atacada?
Eméreter torceu o pano com uma agilidade e força que não condiziam com suas mãos finas e de idade avançada.
- Eu não controlo o futuro, apenas sei o que é necessário para me precaver.
Abriu o pano e passou no altar de pedra, limpando as pequenas manchas.
Graham ponderou tudo e sentou-se, por fim.
- Eu não estou entendendo. Quem é você? Algum tipo de bruxa? Há mais de você por ai? Por que está protegendo essas pessoas aqui? - colocou para fora todas as perguntas de uma só vez.
- Protejo as pessoas dessa vila porque elas eram tão desamparadas quanto eu na época - descansou o pano molhado e secou suas mãos delicadas em outro e sentou-se de frente para Graham. - Tão sem lar quanto eu, fugindo da tirania de seu rei, que matava seus iguais como esporte. Acolhi essas pessoas aqui, longos anos atrás, e as protegerei até o meu fim.
"De onde eu vim, há muitos como eu - continuou. - Somos uma classe de magos muito poderosa. Por esse reino já passaram alguns de nós, você deveria saber melhor do que ninguém.
Seus olhos cintilavam como chamas em sua direção, com um certo divertimento ao ver Graham pensativo e confuso, como se estivesse tentando evitar certas ideias. E ele realmente estava. O quadro de seu antigo familiar ardendo no fogo, atirado por Bard, aquele soldado se benzendo antes de se aproximar de sua casa, os boatos que ouvia desde pequeno difamando sua família. Expulsos da corte, alguns queimados e enforcados, outros apenas enxotados como cães sarnentos. 
- Eu vejo em você - Eméreter inclinou-se levemente para frente - Todas as histórias que você ouvia eram verdades, não foram apenas inventadas para feri-lo. 
Graham se exasperou, levantando-se.
- O que quer dizer então? Minha família eram magos? Temos sangue mágico? O que eu deveria fazer agora, me transformar em coelho? Ler o futuro dos outros? Porque eu não me sinto como se pudesse fazer nada dessas coisas. Você está enganada - atirou as últimas palavras como se pudesse magoa-la.
Eméreter endireitou-se em seu banco novamente, surpresa com a rudez de seu convidado.
- Não se sente como se pudesse porque você não pode. Você e eu não compartilhamos do mesmo sangue. Durante os anos nossos antepassados foram se misturando, mas a magia não floresce em toda a linhagem quando não pura. Aquele cuja magia o socorria, mesmo que fracamente, derramou seu sangue antes de dar continuidade à sua linhagem. Tão novo. Eu senti aqui quando ele pereceu - seus dedos finos se apertavam contra seu peito, seus olhos marejando de leve. Foi quando Graham percebeu onde tinha visto aqueles olhos pela primeira vez.
- James? - sua voz falhava.
Sentou-se lentamente se segurando na parede, mal se atrevendo a acreditar. Sentiu um forte aperto no peito ao lembrar como o irmão partira tão de repente. Com toda a sua coragem e bravura, tentando defender sua família. Aquele brilho que vira momentaneamente em seus olhos quando se tornara aquela figura tão sombria, o mesmo que via agora em Eméreter.
- Você nunca percebeu que ele era diferente? - perguntou, incrédula.
- Ele nunca foi... Nunca deu algum sinal de ser... Só pode estar enganada.
- Você sabe que não estou. Talvez ele não tenha dado sinais muito fortes, talvez tenha tentado esconder, por estar com medo. Mas eu senti a força dele se reunindo em seus últimos segundos. Mesmo que eu não o tenha conhecido, ele era um de nós e sinto o pesar. Diga-me, como aconteceu?
Graham não poderia repetir em voz alta como James morrera e não aceitaria uma estranha perguntando sobre seu irmão. Levantou-se novamente, furioso, querendo fugir do assunto.
- Se era um de vocês então por que não o trouxe para viver sob a sua proteção? 
Eméreter silenciou-se por alguns segundos, inspirou o ar longa e profundamente, alargando as narinas e arqueando apenas uma das sobrancelhas. 
- Eu não poderia. Não poderia tirá-lo de sua família e a existência dessa vila, ninguém, além dos que já vivem aqui, deveria saber.
- Era o direito dele saber! Se ele realmente era um... - não conseguiria repetir em voz alta. - Ele tinha o direito! Agora está morto porque você preferiu não sair dessa vila por causa dessas pessoas, mesmo ele sendo do seu sangue - estava gritando.
- A sobrevivência de muitos justifica o sacrifício de poucos. E não jogue a culpa da morte dele para mim, sabes muito bem quem foi o culpado disso.
Graham, arfando de raiva, encarou Eméreter, que ainda sustentava a mesma expressão fria e calculada. 
- Vamos falar então sobre algo que cabe à sua culpa - cuspiu as palavras como se fossem veneno. - Por que não salvou o filho de Bastian? Por que martirizou o homem fazendo-o sacrificar o próprio filho?
Graham conseguira quebrar a expressão fria da maga. Crispando os lábios, ela levantou-se finalmente.
- Não havia nada que eu pudesse fazer - virou-se de costas, apoiando os braços em seu balcão, que sustentava todos os seus instrumentos estranhos.
- Ou será que apenas faz o que lhe convém? - provocou, Graham. - É uma maga! Usasse a sua mágica! 
Eméreter virou-se tão de repente quanto a pancada que Graham sentiu em seu peito. Sendo jogado contra a parede da árvore, caiu sentado em seu banco novamente. Pequenos galhos brotaram da parede de madeira de ambos lados de sua cabeça e se envolveram contra sua boca. Contemplou Eméreter, de olhos brilhando lilás intensamente, o dedo apontado ameaçadoramente contra seu peito.
- Chegaste ontem a esta vila, não ouse a me dizer como governar essas pessoas - fitou Graham, como se avaliasse o que ainda faria com ele. - Pense sobre o seu passado enquanto estiver aqui - disse por fim -, você tem muito o que aprender, mas, enquanto isso, não se atreva a tirar a minha paciência.

O Reino Oculto - Capítulo 11

O Reino Oculto - Capítulo 11





CAPÍTULO 11

Avistou a árvore ao longe ao tomar a estradinha de terra. Era fascinante vê-la, como foi na primeira vez. Era mais uma coisa que gostaria de poder mostrar ao seu pequeno John. Na metade do caminho, sentiu leves arrepios ao passar pela casa velada novamente.
Havia um aglomerado de pessoas amontoados ao redor da árvore. De longe reconheceu a figura magra e os cabelos de algodão de Bastian. Estava conversando com uma jovem mulher ao lado de um homem de cabelos longos.
- Graham, filho! - Bastian erguia os braços ao vê-lo se aproximando.
Estava começando a se sentir desconfortável ao ser chamado de filho pelo velho.
- Estes são Mary e Edward. Pais de William, do qual você já deve ter ouvido falar, eu suponho.
Os olhos de ambos estavam vermelhos e inchados, analisando Graham com deliberada curiosidade - o que o faziam parecer um casal de desvairados somando seus trajes sujos de sangue, como se fossem açougueiros.
- Ouvi, sim. Sinto muito pelo o que aconteceu.
- Ele ficará bem. Não há nada que nossa grande salvadora não possa fazer - a mulher olhou fervorosamente para a árvore.
Bastian acenou levemente com a cabeça, o olhar vagando ao longe tentando esconder uma certa tristeza súbita.
Graham se atentou à árvore e pode ouvir um leve canto ou oração vindo dela. No chão da entrada, podia-se ver manchas de sangue que faziam uma trilha até uma das carroças do outro lado. Além dos três ali, haviam outras pessoas também em pé e outras sentadas no gramado. Parentes ou curiosos, ele não saberia dizer, mas havia um grande número de crianças ali. Olhou para Bastian com um olhar significativo e este entendeu. Pedindo desculpas ao casal, se afastou com Graham.
- O que exatamente aconteceu? Cães selvagens?
- Algo não muito comum de se ver por aqui. O garoto estava indo para a aula junto com outras crianças quando se afastou sozinho para apanhar alguns frutos que avistou numa árvore afastada na mata. Para o azar dele, havia dois cães selvagens adulto por ali. Uma tragédia. Chegou aqui quase sem vida.
- E por que eles estariam lá? Esses cães, você disse que não era comum eles por aqui.
Bastian ficou pensativo.
- Talvez tenham se perdido e se afastado da matilha.
Graham olhou para toda a mata, árvores e montanhas que cercavam a vila e fixou um lembrete mental de nunca chegar perto demais.
- Esses animais, se chagaram tão perto, não poderiam invadir a vila também?
Bastian olhou para as montanhas, empertigado.
- Nah. Não com Eméreter aqui - e voltou para a presença dos pais do garoto, encerrando o assunto.
Ficaram por um bom tempo ali esperando algo acontecer ou surgir alguma novidade sobre o garoto. O estômago de Graham começou a doer de fome à medida que o sol ia andando sobre suas cabeças. O silêncio modorrento era coroado de tempos em tempos com o soluços de Mary, ajoelhada com seu marido ao seu lado.
Então, sob nenhum aviso, Eméreter surgiu entre as folhagens na entrada da árvore, com uma toga branca e salpicada de sangue aqui e ali. Ergueu os braços em direção ao jovem casal.
- Rejubilem-se!
Anunciou dando espaço para um frágil e pálido garoto passar por entre as folhagens. Com finas linhas prateadas serpenteando pelos braços, pernas e bochechas, onde deveriam conter cicatrizes grotescas, o garoto deu pequenos passos trêmulos.
- William!
Com um grito choroso, Mary se levantou correndo aos tropeços para cair de joelhos novamente em frente ao seu filho para abraçá-lo. O pai do garoto também caiu de joelhos, porém, este, de frente à Eméreter.
- Obrigado, ó, grande Eméreter, salvadora e protetora. Obrigado por salvar nosso filho - plantou-lhe um beijo em suas mãos finas.
Os vivas e aplausos vibraram pelo local e Bastian contribuiu avidamente. As crianças, meninos e meninas de todas as idades, tiraram o pequeno Will dos braços de sua mãe e o saudaram com abraços, despenteando seus cabelos como se ele tivesse acabado de ganhar uma justa. No momento seguinte, todos entoavam uma canção. Crianças e adultos cantando alegremente ao ritmo de alguns instrumentos de mãos que tiraram dos bolsos ou das carroças.
E, como numa procissão, dois meninos altos e fortes ergueram o pequeno Will acima de todos e começaram a andar. As crianças na frente, cantando e dançando, e os adultos atrás, seguindo em direção à praça. Bastian, cantando e gingando alegremente, se juntou à comemoração.
Quando todos estavam ao longe, virando a esquina, a música foi se dissipando, permitindo que o silêncio reinasse novamente ao redor da árvore. Virou-se para a mesma e viu Eméreter parada ainda no mesmo lugar, observando Graham, que não havia se juntado ao povo nem aos aplausos.
- Não foi o bastante para te impressionar? - perguntou serenamente.
- Há muitas coisas que me impressionam - disse se aproximando lentamente. - Mas nem todas elas me fazem querer bater palmas.
Eméreter deixou escapar um meio riso pelo nariz. Sustentou um olhar ainda sereno com seus olhos lilás, agora, um pouco pálidos devido à luz do sol. Mas eles ainda continham um certo brilho intrigante, algo que despertava em Graham um sentimento que ele não conseguia explicar. Algo meio novo e meio familiar.

O Reino Oculto - Capítulo 10

O Reino Oculto - Capítulo 10





CAPÍTULO 10

O lugar era escuro e muito amplo. Velas de todas as cores encontravam-se espalhadas por ali. Uma garota e um garoto, ambos com não mais do que 15 anos, reparou Graham, levaram os corpos por uma das portas, silenciosamente.
- Aprendizes de Eméreter - explicou Bastian. - Fizeram voto de silêncio.
Graham deixou o lugar para trás cheio de perguntas a fazer. No caminho de volta para a movimentação da cidade pegaram uma chuva extremamente gelada.
- Você poderá ficar comigo - anunciou Bastian tirando excesso de água do rosto com as mãos. - Minha casa é pequena mas servirá.
As ruas de pedras já não estavam mais tão cheia como antes devido à chuva, porém, ainda se via algumas crianças brincando na chuva e adultos correndo procurando abrigo. A casa de Bastian era ali perto da movimentação, ao lado de um mercadinho de frutas. Um pequeno galpão ao lado foi onde deixaram a carroça junto com Malhado. Entrando pela porta lateral, agradecidos por estarem longe da chuva agora, tinham acesso à uma sala toda de pedra, com apenas duas cadeiras estofadas viradas para uma lareira. Bastian adentrou a porta da esquerda e logo voltou com algumas lenhas na mão. A sala era pequena, de modo que a lareira a preencheu com calor quase que imediatamente. E foi onde ficaram a maior parte da noite após o banho e a janta - vários vegetais cozidos com carne de galinha.
A chuva ainda caia forte quando Graham se aconchegou na cama do andar de baixo, que pertencera ao filho de Bastian. Não demorou muito para adormecer, tinha acontecido coisas demais para um dia só.

Estava de volta ao seu casebre, parado na cozinha. Ouviu a voz de John aos fundos e quis ir atrás de seu filho, vê-lo mais uma vez. Mas a aparição de James na porta de entrada o fez congelar onde estava. Seu irmão estava com uma braçada de lenha nos braços e as botas cheia de lama. Espalhando a lama para todo lado, largou a lenha sobre a mesa e riu para o irmão.
- O que está fazendo aqui Graham? Por que não vai lá fora nos ajudar? Já vai anoitecer, precisamos de sua ajuda.
James deu um passo na direção do irmão e este deu outros dois para trás. James estava morto, Graham não entendia porque ele estava ali, rindo, como se nada tivesse acontecido. Mas este sorriso logo desaparecera e seu rosto se contorceu de ódio.
- Vamos, Graham, venha conosco cavar a minha cova - James avançou na sua direção, colocando-o contra a parede, suas mãos apertando seu pescoço. - Venha ajudar, não posso cavar minha própria cova sozinho, posso?
James estava tão perto que Graham conseguia sentir seu bafo podre. Tentou gritar e se livrar das mãos do irmão, mas sua voz não saía e seu corpo parecia congelado. Estava ficando sufocado e sentindo a vida se esvair aos poucos de seu corpo quando sangue começou a escorrer da boca, do nariz e dos olhos de James. Então Graham percebeu que não estava olhando para James, e sim para o seu próprio rosto escorrendo sangue.
- NAAAAOO - sentou-se na cama com o coração disparado e a garganta doendo. Colocou a mão no rosto e o sentiu todo molhado. Olhou desesperado paras suas mãos e ficou aliviado ao ver apenas suor e não sangue.
Sentiu-se melhor ao descobrir que Bastian já não se encontrava mais dentro de casa para ouvir seu grito ou o que mais que ele tivesse falado enquanto dormia. Uma fatia de queijo e frutas secas foi o que achou de fácil acesso na pequena cozinha para tirar James de sua cabeça. Como não foi o suficiente, saiu para procurar Bastian. Malhado não se encontrava no galpão, de modo que deduziu que o velho deveria ter ido longe. Mesmo assim, saiu para dar uma olhada nas redondezas e conhecer a vizinhança.
Uma grande movimentação de pessoas com várias sacolas de comida na mão agitava a manhã naquela larga rua. O mercadinho de frutas do lado da casa de Bastian estava apinhado de gente, ainda assim, um homem corpulento e alto que andava entre os cliente a todo sorrisos, com um avental acinzentado, teve tempo de parar ao lado de Graham, observando-o com muita curiosidade.
- Dia.
- Bom dia, meu senhor - tentou parecer amistoso o bastante.
- Não sabia que Bastian tinha outros parentes por aqui. Qual o seu nome?
Graham achou que deveria ser realmente parecido com o filho de Bastian.
- Não, não. Não sou nenhum parente de Bastian. Me chamo Graham. E o senhor?
As sobrancelhas volumosas do homem se fecharam formando uma só.
- Tom. Tenho certeza de que nunca o vi aqui pelas redondezas. É novo por aqui?
- Sim, cheguei ontem.
Ao ver a expressão do homem Graham achou que essa não era a melhor resposta que poderia ter dado. Antes que ele pudesse perguntar mais alguma coisa, uma senhora de cabelo desgrenhado e roupas sujas na altura da cintura se aproximou com uma galinha viva nas mãos. O animal se debatia tentando escapar.
- Senhor Tomas, o que posso levar em troca desta? - ergueu o animal na altura dos olhos do homem.
- Galinhas?! Estou farto de galinhas! Não tenho espaço para mais galinhas! Não poderá trocar por nada hoje.
A pequena ave se debateu tanto aos gritos de Tom que acabou se soltando e voando na direção do homem corpulento. Agradecido pela senhora e sua galinha, Graham aproveitou a confusão e desceu a rua em direção à praça. Ficou pensando se deixaria Bastian com problemas. Ao julgar pela expressão do homem, imaginou que sim, afinal, essas não eram terras para se trazer estrangeiros a todo gosto.
Graham teve que tomar cuidado para não transitar pela praça esbarrando nas pessoas. Havia uma nota de burburio no ar. As pessoas sempre paravam para conversar ou passar alguma informação, como formiguinhas quando se encontram. As únicas palavras que conseguia captar ao seu redor era alguma coisa com "mais cedo" e outra com "mais tarde". Se perguntou qual seria o assunto.
A praça era circular e bem ampla, com várias casas comerciais circundando o local. Casas de tecidos, armazéns, boticários, ia observando enquanto passava em frente. Pubs e até mesmo bordéis se encontravam ali na praça central. Chegando na outra metade, via-se ferreiros, carpinteiros, tanoeiros, carroceiros e tecelões. Era a parte mais suja da praça.
Nas ruas era muito comum encontrar jovens e crianças com carrinhos cheios de tortas e guloseimas para vender. Graham resolveu se aproximar de um jovem rapaz que deveria estar entre 10 e 12 anos, anunciando tortas de peixe ao vento.
- Dia, meu bom senhor - disse alegremente ao vê-lo se aproximar. - Torta de atum? Bolinhos de bacalhau? Acabaram de sair do forno de minha mãe.
Olhou os bolinhos com formato tosco de peixe.
- Desculpa, mas estou sem dinheiro agora.
O garoto franziu a testa.
- Dinheiro?
- Sim, moedas - Graham parou pensando que ele provavelmente não saberia nada sobre o sistema local deles. - Como você vende suas tortas e bolinhos?
O garoto se remexeu trocando o peso de um pé para o outro, inclinando a cabeça de lado.
- Não vendemos, senhor, trocamos. Esqueceu de como as coisas funcionam?
- Sim, sim, trocamos - forçou uma risada. - Na verdade não estou querendo trocar nada, queria apenas uma informação. Todo mundo parece estar cochichando algo. Há alguma novidade acontecendo?
- Bom, até onde sei, a novidade é que o pequeno Will foi atacado por cães selvagens hoje cedo - disse friamente, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
- Quê?
- Ele já está sob os cuidados de Eméreter. Logo estará novinho em folha.
Ficou encarando o garoto enquanto processava as informações. Agradeceu e virou-lhe as costas atravessando a praça a procura da ruazinha que lavava à árvore. Provavelmente Bastian estaria lá também.
Caminhando a passos largos ficou pensando em cães selvagens. Nunca tinha ouvido falar. Deveria ter perguntado ao garoto onde exatamente os cães estavam na hora do ataque mas percebeu que quanto mais abria a boca mais estrangeiro se mostrava e mais as pessoas se mostravam hostis. Imaginou que ali naquele lugar deveria conter uma grande sorte de coisas das quais ele nunca ouvira falar e muita coisas a aprender.
O Reino Oculto - Capítulo 9

O Reino Oculto - Capítulo 9





CAPÍTULO 9

Terminaram de descarregar as caixas pequenas em silêncio. Deixaram-nas ao lado do altar e apenas pararam quando se depararam com apenas duas caixas longas e uma pequena, ambas lacradas. O sol já não ardia forte, muitas nuvens já começavam a cobrir o céu e o vento era mais fresco. Ambos ficaram parados olhando para uma terceira caixa longa, vazia. Graham sabia que era ele que deveria estar ali dentro. Mesmo que ele não estivesse já morto quando Bastian o arrastou naquela manhã, oras, "acha que posso aparecer na frente das pessoas e socializar com elas?", "não posso permitir que ao menos pensem em me seguir" foi o que ele dissera na ultima conversa.
- Que perda é essa que você ainda não superou? - perguntou lentamente.
Bastian não respondeu nem ao menos se moveu.
- Por que me trouxe vivo até aqui? - insistiu.
Bastian tirou um lenço amarelado do bolso e secou sua testa suada e deu uma longa olhada para a entrada da árvore. Seu olhar era de quem sentia uma constante dor.
- Vamos andar - disse puxando Malhado pelas rédeas. - Me acompanhe e te explico.
A passos lentos, Graham aguardou que Bastian começasse a falar. O velho parecia estar resolvendo uma confusão interna para escolher as palavras certas.
- Você me perguntou mais cedo sobre como eu comecei a trabalhar para Eméreter. Não foi por vontade própria, posso lhe garantir. Não que eu esteja reclamando.
Silêncio novamente. Bastian não tirava os olhos do chão e Graham aguardou pacientemente.
- Minha esposa morreu ainda jovem, deixando apenas um menino. Meu menino. Ela deu a vida dela pela a dele, nem chegou a conhecer o próprio filho. Mas eu cuidei bem dele por ela, cuidei como se ele fosse a coisa mais valiosa da minha vida porque ele realmente era - outro silêncio. - Mas as crianças crescem e a teimosia cresce junto. Assim como qualquer outra pessoa ele também queria atravessar a ponte e descobrir o que havia do outro lado. "Aquele castelo" ele dizia desde pequeno, quando fugia para o rio, "eu ainda vou entrar naquele castelo, quero conhecer quem mora lá".
"As crianças daqui sempre fantasiam sobre o que há naquele castelo. Gigantes, dragões e toda essa sorte de coisas. Crianças fantasiam sobre tudo, especialmente sobre o que lhe é proibido, e sempre fomos proibidos a deixar essa vila. Não foram apenas seus padres e construtores que morreram por aquela ponte. A diferença é que aqui deste lado o número foi bem menor. Porém, meu filho sempre quis poder fugir e descobrir um jeito de atravessar. Eu também quis, por um tempo. Planejávamos nossa fuga quando ele se tornou mais velho, até que a ideia chegou aos ouvidos de Eméreter e ela abriu meus olhos. Me mostrou como estaríamos sendo ingratos com toda a proteção que ela nos dava, fugindo para o lado inimigo. Estava prestes a ser declarado traidor então tentei convencer meu filho a não deixar a vila, era perigoso demais do outro lado. Tínhamos tudo o que precisávamos aqui, afinal. Mas ele não me ouvia, me chamou até de covarde. Se desculpou depois, é claro. Entretanto, numa noite festiva, quando comemorávamos a cura de um de nossos doentes, ele acabou bebendo demais, ficou com a cabeça tomada de ideias malucas. Pegou o cavalo de madrugada e saiu em direção ao rio. Eu fui atrás assim que percebi mas não fui rápido o bastante.
Estavam parando em frente a uma das casas que Graham havia reparado anteriormente. Duas lágrimas caíram e Bastian escondia os olhos com o mesmo lenço amarelado. Secou-os e prosseguiu.
- A cena era horrível. O cavalo dele estava agonizando na água com vários cortes pelo corpo. Foi levado pela correnteza. Sem pensar duas vezes entrei naquela água enquanto meu menino se afogava, não muito longe da margem. Várias raízes rateiras estavam em volta de sua garganta. Lutei contra tudo, contra toda aquela força inescrupulosa que habita aquele rio. Quase morri junto, fiquei com vários cortes profundos - levantou suas mãos cheias de cicatrizes compridas que se estendiam dos dedos para além do braço por baixo das mangas. - Mas algo me ajudou a tirar ele vivo de lá.
"Havia um grande ferimento próximo à sua têmpora, devia ter batido a cabeça contra alguma pedra ou parte da ponte. Era sangue pra todo lado. Ele não respondia mais aos meu chamados e tentativas de reanimá-lo mas eu sentia seu coração ainda batendo, sabia que havia esperança. Oras, quantas pessoas Eméreter já não havia salvado da morte? - um pequeno riso que Graham julgou ser de desgosto. - Coloquei-o no meu cavalo e galopei o mais rápido que pude de volta, procurei desesperado por ela. Mas logo ela soube que ele havia traído a sua confiança, se recusou a salvá-lo como castigo. Implorei de joelhos, queria ele vivo de qualquer forma. Me coloquei ao dispor dela para o que ela quisesse, qualquer coisa para salvar a vida de meu filho. Então ela disse que eu serviria somente a ela em troca, que minha vida seria dela. Esse seria o trato e aceitei sem pestanejar. Ela levou-o para dentro daquela árvore, colocou-o deitado naquele altar e me mandou voltar quando o sol amanhecesse. Amanheci sentado do lado de fora daquela árvore esperando que ele saísse andando lá de dentro, curado. Mas não foi o que aconteceu.
"Quando pude entrar ele ainda estava lá, deitado, pálido de olhos fechado, porém já não sangrava mais. As marcas em seu pescoço tinham desaparecido, aquele grande ferimento em sua cabeça já não estava mais aberto. Pus minha mão em seu rosto e o senti aquecido, pus a mão em seu peito e senti seu coração batendo. Esperei que ele acordasse. Eméreter me deixou a sós com ele e esperei e aguardei e ele não acordava. Metade do dia havia se passado e nada dele despertar, chamei-o, sacudi-o. Com minhas próprias mãos abri suas pálpebras. Seus olhos estavam vidrados, mirando o nada. Entrei em desespero e chamei Eméreter de volta. Ela disse que a pancada na cabeça havia sido forte demais. Ela conseguiu mantê-lo vivo, a qualquer custo como pedi, mas não podia trazê-lo de volta do coma.
Mais lágrimas caíram, uma atrás da outra. Graham não tinha certeza se deveria falar algo ou não.
-Meu menino estava ali, de coração batendo e respirando - continuou em tropeço aos soluços -, porém, não estava mais comigo. Levei-o para casa, o deixei deitado em sua cama esperando que em algum momento ele voltasse a falar, andar, me chamar de pai novamente. Mas esse dia nunca chegava. Durante semanas eu acordava e ia dormir e ele continuava do mesmo jeito. Conversava com ele, passava a madrugada ao lado de sua cama sem que ele me desse uma resposta. Não importava quantos fios de cabelo eu arrancasse de desespero, ele nunca me respondia. Meio morto, meio vivo, não aguentava mais vê-lo daquela forma. Chamei Eméreter para fazermos uma oração... quis que ele partisse em paz, na companhia de sua mãe - secou suas lágrimas com as costas de sua mão mesmo e olhou para a árvore ao longe. -  Mesmo depois disso mantive minha palavra. Ela o salvara da morte como pedi, devia minha vida à ela, era a minha palavra. Ela me deu esse trabalho e, ironicamente, o segredo pelo o qual meu filho morreu.
- Isso é cruel!
- Isso é a vida - disse decidido. - Você não faz ideia do quanto me lembra ele. Altura, físico, jeito de falar, jeito de andar - abanou a cabeça desolado. - Eu não pude fazer. As ordens de Eméreter sempre foram claras: não ser visto, não atrair ninguém para a ponte, matar se for preciso. Como eu queria que meu filho tivesse se levantado e me surpreendido quando o arrastei para fora daquele maldito rio da mesma forma que você me surpreendeu quando o arrastei.
- Eu sinto muito - foi a única coisa que conseguiu dizer. - Muito mesmo - pousou sua mão no ombro direito de Bastian e apertou de forma reconfortante. - E agradeço por ter me deixado vivo.
Um leve sorriso surgiu no rosto do velho. Uma trovoada distante fez os dois voltarem ao presente e se dar conta de onde estavam parados.
O sol já havia sumido quase que completamente. Graham olhou ao redor e observou melhor a casa à sua frente. Não era muito grande, mas era alta, com o telhado simples, com telhas planas. Toda pintada de preto e uma grande porta de carvalho, toda trabalhada em detalhes, encontrava-se fechada.
- Suponho que esta seja a casa velada - disse Graham.
- Correto - Bastian bateu três vezes na porta. - Venha, vamos levar os corpos da carroça para dentro.

O Reino Oculto - Capítulo 8

O Reino Oculto - Capítulo 8




CAPÍTULO 8 

Bastian parou sua carroça a poucos metros da entrada da árvore. Apanhou uma maçã e deu a Malhado como agradecimento à viagem feita.
- Você espere aqui, sim? - disse à Graham - Quando for hora o chamarei.
Graham desceu da carroça olhando para o campo ao redor da árvore pensando em explorá-lo enquanto não era chamado. Havia algumas casas ali e podia ouvir água correndo em algum lugar ali perto.
- Não há motivos para espera - uma voz lenta e calma chamou a atenção imediata dos dois para a entrada da árvore.
Parada ali, entre as folhagens que caiam da árvore, estava uma figura franzina de uma mulher. De estatura baixa, cabelos brancos e semi presos, vestida numa toga vermelha escura, simples.
- Eméreter - Bastian retirou seu chapéu e segurou-o firme ao peito enquanto se curvava diante da mulher.
- É bom te ver de volta, Bastian. Entre e traga seu convidado, o chá está quase servido.
Em silêncio os dois entraram na árvore. Graham não viu outra opção senão segui-los. Se aproximou lentamente e ergueu as duas mãos para afastar as folhas que caiam suavemente para se aproximar da árvore. Parou diante da entrada por alguns segundos para admirá-la. Era como se o tronco da árvore se retorcesse para cima abrindo um portal para dentro dela. Ao cruzá-lo, um forte aroma amadeirado invadiu suas narinas. Ficou estonteado por um instante, mas logo sua cabeça se acostumou e sentiu-se mais tranquilo e até menos cansado da viagem.
O interior era pouco semelhante ao lado de fora. Suas paredes eram mais escuras, era redondo e não muito amplo. De frente para a entrada, podia-se ver uma espécie de altar com lençóis branco amarelados por cima. Do lado esquerdo, Bastian se acomodava num banco baixo improvisado e do lado direito, um balcão com várias coisas em cima. Instrumentos que Graham não fazia ideia do que eram e algumas canecas de madeira escura, onde Eméreter despejava um líquido escuro e fumegante. Apanhou a caneca e esticou à Bastian.
- Vejo que ainda não superou sua perda - seu tom era sério. Bastian corou levemente levando a mão à caneca, encabulado. Eméreter não soltou. - Até vestiu-o como tal.
Os olhos de Bastian se arregalaram e seu tom passou de corado para rubro de um segundo para o outro. Por um momento, os dois se encararam enquanto seguravam a caneca. Bastian, com seus lábios levemente trêmulos, como um filho que espera a bronca de sua mãe. Graham sentiu-se terrivelmente incomodado com a situação, até que Eméreter soltou a caneca e liberou Bastian de toda a tensão que preenchia o pequeno aposento. Respirou aliviado, mas apenas até Eméreter encher outra caneca e virar-se para a sua direção.
Sem dizer uma palavra, a velha esticou a mão para que Graham a apanhasse, com o seu olhar duramente caído sobre ele, como se o julgasse em silêncio. Não pode deixar de notar como aqueles olhos eram grandes e com uma mescla de lilás ousadamente brilhando em meio ao castanho escuro. Poderia ser algo que ele nunca tivesse visto antes, entretanto, sentia que já tinha visto em algum lugar. Hesitante, Graham esticou a mão e apanhou a caneca sem tirar os olhos de Eméreter, esperando que ela falasse algo. Porém, a mulher apenas virou-lhe as costas friamente.
- Eu não pude fazê-lo - Bastian segurava sua caneca olhando de Graham para Eméreter. - Eu sinto muito, me tornei um velho tolo e fraco.
Até aquele momento Graham estava confuso, querendo erguer a mão e perguntar sobre o que estavam falando. Até que lembrou de sua última conversa com Bastian. Sentiu seu estômago despencar. Por que ele não percebera antes?
Eméreter virou-se para Graham novamente. Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios finos. Talvez não chegasse a ser um sorriso, apenas um amolecer de sua expressão séria, e virou-se para o balcão novamente.
- O que está feito, está feito. Certos caminhos não contam com retorno e não cabe a mim tentar cavar uma saída dele.
Graham não sabia se respirava mais aliviado depois disso ou se realmente deveria mesmo respirar, pois, por vários segundos, o silêncio prevaleceu no recinto, podendo-se ouvir apenas o som aquoso do líquido da jarra derramando seu conteúdo na caneca de Eméreter. Descansou a jarra sobre o balcão e virou-se para os dois.
- Pois bebam! Não recebo amigos com veneno, se é o que temem - agitou a mão vazia para os dois, bebendo um grande gole de seu chá.
Ambos pareceram se despetrificar e se aconchegaram melhor dentro da árvore. Graham sentou-se no que notou ser um toco da própria árvore talhado em forma de banco e bebericou o chá. O cheiro era engraçado e parecia dançar em seu nariz. O gosto era reconfortante e preencheu todo o seu paladar. Nada parecido com o que se espera de chás. Bebeu quase que meia caneca de uma vez só.
- Muito obrigado, Eméreter - disse Bastian. - Chá de borobur é muito revigorante, especialmente após uma viagem cansativa.
- Muito agradecido - emendou Graham, timidamente, tentando quebrar seu próprio silêncio.
- Vejo que estava preparando o altar - continuou Bastian.
- E espero que tenha encontrado tudo o que preciso do outro lado - disse mirando a cama de pedra maciça. - Amanhã, no mais tardar, ele precisará ser usado.
- Bem, então descarregarei as caixas e a deixarei trabalhar.
- Algum corpo?
- Dois adultos e uma criança.
- Deixe-os na casa velada, por gentileza. Darei um olhada em pouco tempo.
- Como queira. Graham, venha me ajudar a descarregar, sim?
Graham, ainda com a caneca mão enquanto assistia o diálogo, olhou ansioso para Eméreter.
- Está tudo bem - disse ela com calma. - Vá, em breve teremos outra oportunidade para conversarmos.

O Reino Oculto - Capítulo 7

O Reino Oculto - Capítulo 7


  Poderia ele um dia mostrar ao seu filho o que ele acabara de presenciar? Desejou fortemente que sim.




CAPÍTULO 7

- Então, o que mais você sabe fazer? - perguntou Graham esperançoso.
Desde que saíram do túnel e entraram na trilha, Graham não via nada de diferente. A trilha serpenteava pelos mesmos campos que ele estava acostumado a ver do outro lado do rio, com as mesmas árvores e mesmas nuvens. A paisagem ali era exatamente a mesma. Se ele não tivesse presenciado aquela passagem pelo rio, nunca diria que tinha saído do reino. Estava decepcionado, esperava ver magia acontecendo para onde quer que olhasse.
- Como assim?
- Além do que você fez com a água e a ponte. Que outras bruxarias você sabe fazer?
- Não é bem assim que as coisas funcionam. Não sou nenhum bruxo.
Graham ficou confuso.
- Então o que foi aquilo? Algum truque barato de trupe?
- O segredo para atravessar a ponte foi o único segredo revelado à mim. Você não precisa ter sangue mágico para atravessá-la, apenas conhecer as palavras certas. Como eu disse, apenas conheço o segredo da ponte, porque é simples. E nada mais.
- Simples assim? E qual seria o segredo para atravessar? O que você falou para a ponte lá do outro lado?
- Não tenho permissão para compartilhar isso com ninguém.
- Entendo - disse Graham, ardendo com o desejo de conhecer o segredo.
A trilha se assemelhava muito às dos bosques perto de sua casa. Só que essas eram amplamente largas, as árvores pareciam maiores e mais verdes e com mais frutos, reparou depois de um tempo. Por quase uma hora inteira ficaram sem ver um sinal de vida, até que a trilha alcançou as primeiras casinhas, pequenas e frágeis. Seus moradores sempre do lado de fora, cuidando dos afazeres em seus quintais. Depois de pouco tempo as primeiras tabernas, as primeiras hospedarias e mercadinhos. Aqui as casas já começavam a aumentar em quantidade e em tamanho. Muitas crianças corriam pelas ruas, brincando, outras vendendo tortas e doces a cada esquina. Ruas aqui que não eram enlameadas ou terrosas, Graham notou curioso. Ao menos não ali onde todo mundo parecia estar aglomerado. As ruas ali eram revestidas de pequenas pedras quadradinhas e juntas, de uma forma que ele nunca tinha visto. Ficou encantado com tudo o que via, ali se revelava um mundo totalmente diferente do que ele estava acostumado. Apenas ficou desapontado por não ver nenhum animal exótico mágico e as pessoas pareciam comuns fazendo coisas de pessoas comuns. Nenhum sinal de magia em lugar algum.
- São pessoas como você e eu - disse Bastian. - O que você esperava? Uma comunidade de bruxos vivendo aqui? - riu. - As pessoas daqui vieram do mesmo lugar que você, só que muito antes de você. Encontraram abrigo aqui e aqui ficaram sob a proteção dela, a nossa salvadora.
- Quando irei conhecer essa salvadora, afinal? Você fala dela como se ela fosse um deus.
- E você a respeitará como tal, se quiser abrigo aqui conosco. Irá conhece-la num par de instantes, estamos indo ao encontro dela agora mesmo. Preciso entregar as mercadorias que trouxe do outro lado.
Graham olhou ao seu redor.
- Que mercadorias exatamente são essas? - perguntou mirando as caixas misteriosas.
- Frutos, plantas, ervas... As terras daqui são bem férteis, porém, certas coisas essenciais não brotam por aqui. E esse é meu trabalho, buscar essas coisas.
Graham ficou absorto em seus pensamento, remoendo uma ou duas perguntas, inquieto. Resolveu perguntar a primeira.
- Buscar? No sentido de apenas pegar e trazer? Ao menos paga pelo o que pega?
- Pagar? Acha que posso aparecer na frente das pessoas e socializar com elas? Carrego, além de inocentes plantas, cadáveres, se lembra? Arrasto corpos de seus entes queridos, moro num lugar que nem em sonhos eles sabem que existe. Não posso permitir que ao menos pensem em me seguir.
- E acha justo ainda roubar na surdina o que plantamos e pagamos para comer?
- Mesmo que eu quisesse pagar, seu povo nem ao menos sabe da existência dessas plantas. Não são comercializadas - Bastian deu um grande suspiro cansado ao ver a expressão intrigada de Graham - Entenda, o conhecimento que essa vila aqui tem é todo graças à ela, Eméreter. Sabemos de coisas que vocês jamais ao menos sonhariam. Temos curas para as doenças que matam metade de vocês do outro lado do rio, e temos conhecimento para evitar doenças que afetam a outra metade.Graças à sabedoria de Eméreter, que estuda a fundo o corpo humano, sabe. Ela diz que estudar os cadáveres é importante para compreender o corpo e as doenças. E o tanto de corpos do outro lado... - Bastian balançou a cabeça com uma expressão de dor.
- É realmente lastimável, as pessoas morrem feito moscas e para as moscas elas ficam - teve de reconhecer.
- É cruel demais como as coisas acontecem lá. Não posso apenas carregar esses corpos em caixas por ai, o cheiro me denunciaria e eu mesmo não aguentaria viajar. Eméreter me falou dessas plantas que crescem no meio da floresta. Uns 4 ou 5 ramos já são suficientes para conservar e chegar fresco até ela.
- E como você chegou ao serviço dela?
- Longa história - deu um longo suspiro, desviando o olhar para o outro lado. - Veja só - disse ao virar a esquina - estamos quase chegando.
Olhando para frente, Graham viu uma estradinha de chão que seguia em linha reta, ladeada de um gramado verde intenso. Graham ficou maravilhado com a mudança súbita de paisagem. Mais maravilhado ainda com o que havia ao final da estrada.
Uma enorme árvore roubava toda a cena da paisagem. Era extremamente robusta e vasta para os lados. Suas raízes eram grossas e de um cinza prateado, parecia feita de mármore, assim como todo o tronco, que se erguia a uns 10 metros do chão. No fim da sua extensão, vários galhos nodosos se estendiam para todos os lados, criando uma volumosa copa com folhas verdinhas e arredondadas, balançando levemente ao vento. As laterais formavam uma cascata de folhas que iam até o chão. Mas o mais curioso da árvore era o seu tronco. Não era apenas largo e robusto. Era extremamente largo e redondo, com uma abertura na frente. Parecia uma toca redonda.
- Aposto que nunca viu algo parecido antes - disse Bastian.
- Desde que abri meus olhos nesta manhã - riu-se Graham. Percebeu que há dias não se permitia rir de algo. - É incrivelmente bela.
- É a nossa árvore sagrada.

O Reino Oculto - Capítulo 6

O Reino Oculto - Capítulo 6


  Ali estava ele, diante da ponte que tantos reis não conseguiram nem chegar perto de desvendar seu segredo. Uma forte rajada de vento varreu seus cabelos para o lado e as águas começaram a correr forte. 



CAPÍTULO 6 

- Você é surdo!? Eu disse aconteça o que acontecer, mantenha-se quieto e sentado - disse Bastian exasperado, puxando Graham para baixo.
Sentou-se rapidamente pedindo desculpas e Bastian, olhando novamente na direção da ponte, ergueu a mão direita acima de sua cabeça e murmurou algo. Graham não pode entender o que o velho dissera devido ao vento forte surrando tudo o que encontrava pela frente, e até mesmo porque Bastian parecia estar conversando com a ponte num tom pouco acima de um sussurro.
Graham aguardou em silêncio. Por um momento achou que nada iria acontecer, mas o vento começou a diminuir gradativamente até ficar apenas uma leve brisa. Bastian baixou a mão que ainda estava erguida e também aguardou ansioso. Abriu a boca para começar a perguntar ao velho o que estavam esperando quando parou a meio caminho. O vento parara completamente, porém, a água do rio começara a correr mais rápido. Ao invés de correr seguindo o percurso como o normal, ela se afundava mais à frente e começava a girar, envolvendo a ponte. Em poucos segundos Graham percebeu que estava se formando um túnel de água à sua frente que se alargava cada vez mais até ficar com uns quatro metros de diâmetro. E para o espanto maior de Graham, ele pode ver a extensão da ponte se alongando para dentro do túnel, que se afundava cada vez mais no rio.
- O que acha? - Bastian se divertia com o espanto no rosto de Graham.
- Incrível!
Foi a única coisa que conseguiu pronunciar. Estava maravilhado com o que estava presenciando. Malhado começou a marchar para dentro do túnel ao comando de Bastian e Graham ficou estupefato. Dentro do túnel a água girava sem parar e a ponte encontrava-se lá, intacta, à disposição de Graham. Sentiu-se poderoso, mais poderoso do que qualquer rei. Ergueu a mão e tocou a lateral do túnel, a água corria impacientemente nas pontas de seus dedos. O sol penetrava muito pouco de modo que a luz ali era fraca, mal conseguindo iluminar o contorno de muitos peixes ao seu redor, como se estivessem impacientes, esperando o túnel se desfazer para poder atravessar livremente para o outro lado.
Deviam estar às uns 5 metros abaixo da superfície.
- Isso é magia - Não era uma pergunta. Graham tinha certeza que era e estava maravilhado com isso.
- Tem muita coisa ainda à frente para ver. Você ainda tem muito o que aprender. Apenas relaxe e aprecie a vista.
Mas Graham não conseguia relaxar, tudo aquilo era novo e surpreendente demais para absorver rapidamente.
- Me pergunto o que irei encontrar após a ponte - fantasiava com todas as maravilhas que poderia ver do outro lado.
- Nada demais. Apenas uma aldeia com pessoas tentando sobreviver.
- Sim, mas com magia.
Bastian riu.
- Como que ninguém no nosso reino sabe disso? Da existência de algo assim?
- Guarde essas perguntas para a pessoa certa.
- Qual o nome dela afinal?
- Eméreter. Aproveite para comer mais um pouco enquanto atravessamos, você ainda parece fraco. Há pães e maçãs na caixa perto de seu pé direito, se tiver a bondade de me alcançar algumas.
Graham partiu um pedaço de pão ao meio e estendeu uma maçã à Bastian. Ambos comeram em silêncio durante a travessia e se preparam para sair quando estavam perto do final.
Graham aguardou ansioso o que veria ao sair do túnel. Seria uma cidade totalmente cheia de magia com pessoas estranhas e criaturas mais estranhas ainda andando para lá e pra cá?
A luz do sol invadiu a sua visão à medida que ia saindo do túnel. Alcançaram a outra parte da ponte e Graham viu nada mais do que apenas árvores. Exatamente como era do outro lado. Olhou para trás e viu o túnel de água se desfazer e o rio voltar a correr normalmente outra vez. Olhando para além do rio, além da floresta densa, podia-se ver o castelo que ele tanto invejara, erguendo-se imponente, embora dali pudesse ver apenas o seu contorno no alto de um monte. Era grandioso e belo.
Pensou em tudo o que ficara para trás. Sua casa, sua família. Seu filho tão pequeno. Será que ele imaginaria onde seu pai pôde chegar? Poderia ele um dia mostrar ao seu filho o que ele acabara de presenciar? Desejou fortemente que sim.

O Reino Oculto - Capítulo 5

O Reino Oculto - Capítulo 5


 - Creio que eu tenha dado mais prejuízo do que o lucro imaginado inicialmente. Tome essas moedas, por eu ainda estar vivo.


CAPÍTULO 5 

Após recomeçarem a andar, Graham descobriu que Bastian era como ele, sem família - embora nenhum dos dois quisessem se alongar muito no assunto sobre como cada um ficara sem uma família. Andando por aí com Malhado, seu cavalo, levando e trazendo coisas em sua carroça para uma velha senhora. "Você irá conhecê-la no tempo certo" dizia.
Graham rearranjara as caixas para poder se acomodar melhor na parte de trás da carroça. Algumas delas estavam abertas, contendo várias maçãs, sacas de trigo e plantas que ele não reconhecia. Outras estavam fechadas e lacradas e foram difíceis de movê-las, devido ao peso. Logo Graham percebeu que abaixo das caixas pequenas haviam três grandes. Compridas e largas o bastante para ele deitar-se ali dentro. Um leve arrepio percorreu seu corpo. Estavam lacradas como as pequenas e reconheceu que apenas duas delas continha algo dentro e a terceira estava vazia. Preferiu não perguntar a Bastian sobre o conteúdo das caixas, mas começou a se perguntar se realmente fizera uma boa escolha ao se juntar ao velho.
Sentou-se sobre a caixa vazia e olhou ao seu redor. As árvores da floresta estavam ficando cada vez mais densa, o sol logo se tornaria um pontinho de luz que mal conseguiria penetrar naquele mar de árvores. Chegaram a um ponto em que Graham nunca havia nem chegado perto de entrar na floresta em toda a sua vida. Imaginou que a velha para quem Bastian trabalhava não deveria estar muito longe agora, ou seria possível alguém morar tão afastado da companhia humana da vila? Pensou em si mesmo e descobriu que se não fosse por Bastian, talvez ele mesmo teria se isolado no fundo da floresta, longe de todos e, principalmente, longe dos soldados do rei.
A mata estava ficando tão fechada que Malhado estava começando a ter dificuldades para passar, fazendo a carroça quase tombar para todos os lados cada vez que passava pelas grossas raízes das árvores e pedras. A floresta parecia estar querendo impedi-los de passar e Malhado e Bastian pareciam estar lutando juntos contra a vontade dela.
- Para onde exatamente estamos indo? - perguntou receoso.
- Ha! Achei que nunca iria perguntar - Bastian ria divertido. - Para além do rio.
- Além do rio? - Graham ria de nervoso. - Só pode estar brincando. É impossível sair deste reino.
- Para viajar comigo você terá que banir a palavra “impossível” do seu vocabulário - disse Bastian levantando o dedo indicador, num tom de quem sabe das coisas.
- Mas as lendas! Nunca ninguém conseguiu... Pessoas morreram... - Graham pensou em abandonar o velho que parecia completamente louco, mas ao olhar para trás se deu conta de que nunca conseguiria voltar naquela floresta sozinho.
- Lendas! - Bastian fez um gesto com a mão como se quisesse afastar a ideia displicentemente. - Bobagens. Bobagens que o seu rei enfia goela abaixo de vocês no lugar de comida.
- Mas os construtores, todos se recusaram a tentar erguer a ponte novamente. Ninguém quer nem chegar perto. Várias pessoas perderam a vida durante os séculos à mando dos reis antigos que ignoravam a fúria do rio. Até mesmo o nosso atual rei resolveu esquecer essa ponte, assim como o pai dele antes dele. Há quase um século que ninguém ao menos chega perto dessa ponte, você deveria saber.
Bastian apenas riu enquanto continuavam no caminho tortuoso. Graham já podia ouvir ao fundo o som da água correndo.
Seu pai sempre lhe contava a história sobre a ponte misteriosa. Ele mesmo também nunca havia visto a tal ponte com os próprios olhos, mas as histórias que contavam sobre ela corriam o reino todo. A perdição dos reis, a chamavam. Longe dos ouvido de tais, é claro. Nenhum rei gostava de ser lembrado de que havia algo que eles não conseguiam de maneira alguma conquistar. Mas as histórias diziam que todo e qualquer construtor que tentasse recuperar a velha ponte de madeira do fundo do rio, simplesmente morria de alguma forma. A maioria era levado pela correnteza, outros terminavam, misteriosamente, com alguma estaca da própria ponte em seu peito. Outros, tomados por alguma loucura súbita, atavam suas cordas nas árvores na margem do rio e davam um fim à sua própria jornada ali mesmo. Todos os reis arderam com a vontade de atravessar aquele rio e conquistar o que quer que houvesse do outro lado para aumentar sua glória e riquezas. Até mesmo padres foram chamados para acompanhar o trabalho dos construtores e tentar exorcizar a tal ponte. Todos morreram como qualquer outro construtor. Nada tirava a ponte do fundo daquelas águas, nem mesmo a construção de uma nova ponte parecia possível ali onde era o único local de possível travessia para o outro lado. O mesmo se aplicava às embarcações. Todas naufragadas. Com o tempo foi ficando cada vez mais difícil conseguir alguém que se dispusesse a chegar perto da ponte, muitos iam sob ameaça de morte, até que chegaram ao ponto de preferir morrer pela espada do que morrer enfrentando algo tenebroso e sombrio. Com o tempo ela fora esquecida.
Graham não conseguia acreditar que o velho estava mesmo crendo que ia passar para além do rio. Como ele faria isso? Teria ele descoberto alguma forma que ninguém nunca havia pensado antes? A curiosidade de Graham começou a queimar dentro de si e esperou para ver o que aconteceria.
- Muito bem, filho - disse Bastian com calma quando as  árvores começaram a se abrir e dar mais espaço para a carroça passar, entregando uma ampla vista do rio. - Aconteça o que acontecer, fique sentado onde você está.
O caminho acabava ali e rio estava passando à sua frente. O sol brilhava forte acima de suas cabeças, deveria estar marcando agora metade do dia. Protegeu seus olhos da luz repentina do sol, mas mesmo assim pode ver ali o início de uma ponte, com quase 3 metros de largura. Malhado parou em frente à ela, bateu as patas dianteiras, relinchando, impacientemente.
- Calma, calma, já vamos - sussurrou Bastian carinhosamente ao cavalo.
Graham se ergueu sobre as caixas para ver melhor toda a extensão da ponte. Ela se iniciava imponente, com a madeira incrivelmente firme pela extensão de uns 6 metros e então começava a afundar para dentro das águas escuras. Partida ao meio, sem nem sinal dela até a outra margem do rio. Pouco mais de 1 km separava as duas extremidades da ponte. Lá do outro lado Graham avistava o que imaginava que fosse a outra parte dela, cercada pelo verde e grandes montanhas ao fundo.
Ali estava ele, diante da ponte que tantos reis não conseguiram nem chegar perto de desvendar seu segredo. Uma forte rajada de vento varreu seus cabelos para o lado e as águas começaram a correr forte. 
O Reino Oculto - Capítulo 4

O Reino Oculto - Capítulo 4


 Se levantou e saiu andando às cegas, fugindo da catástrofe que ele mesmo trouxera até sua família. Fugiu para que ela não o sugasse direto ao desespero.


CAPÍTULO 4

Acordou zonzo com a luz do sol entrando pelas copas das árvores e o chão se movendo embaixo de si. Levou alguns longos segundos para perceber que seus braços estavam esticados para trás de sua cabeça, levou outros segundos para perceber que estava sendo arrastado por alguém.
- Ei! Me larga!
- Valha-me, Deus!
Graham sentou-se no chão livrando-se das mãos de um velho assustado que agora apertava um chapéu esfarrapado contra o peito, realizando o sinal da cruz.
- Achei que estivesse morto, diabo!
Graham fitou o velho que pôs o chapéu sobre os cabelos desgrenhados e sujos.
- Gostaria de estar - resmungou tentando se colocar de pé. Vários ossos da sua costelas doeram e teve mais noção do sangue seco em seu rosto, proveniente de seu nariz quebrado. Olhou para as roupas em seu próprio corpo, manchadas de lama e sangue de James. Dormira na beira da estrada depois de andar por horas até cair desmaiado, fosse por sono ou fosse por fome. Não podia culpar o velho por achar que ele estava morto.
- Você vive aqui perto? Tem para onde ir?
Graham olhou do velho para a carroça parada logo a frente, cheia de tranqueiras na parte de trás. Na frente, um cavalo forte que parecia aguentar ainda muitos caminhos por vir. As palavras de Lena ecoaram em sua cabeça. “Levante-se e suma de nossas vidas”.
- Não.
- Nesse caso, suba na carroça. Tem um rio ali mais para frente, você precisa se lavar. Você pode me chamar de Bastian. E como eu chamo você?
- Graham - disse arrastando os passos até a carroça.
Estava tão fraco de fome que mal conseguiu subir na parte de trás e largou-se no único espaço entre as caixas fechadas que haviam ali. Bastian, já sentado com as rédeas na mão, olhou para trás observando Graham com curiosidade.
- Tem certeza que não vai cair morto logo? Eu ia vender seu cadáver, sabe, ia me render algumas moedas.
- Não pretendo morrer - respondeu de imediato.
Dando de ombros, virou-se para frente. Ficaram em silêncio durante o trajeto que durou uns cinco minutos. O sacolejo da carroça na parte de trás deixava Graham enjoado, estava fraco demais para aguentar. Assim que a carroça parou se largou contra o chão e engatinhou até a margem do rio. A água estava extremamente gelada e foi um choque para sua garganta assim que a bebeu, mas nem ligou, apenas bebeu toda a água que pode. Poderiam ser 2 ou 10 litros, talvez meio rio, ele não saberia dizer.
- Vá com calma, filho, pode morrer afogado desse jeito - Bastian observava com um olhar um tanto preocupado.
Graham deitou no gramado respirando o ar com força. Seu peito queimava e sentiu-se um pouco mais vivo. Com a ajuda de Bastian, Graham tirou a camisa suja de lama e sangue seco e lavou no rio, lavou seu rosto, lavou seu corpo por inteiro. Tremendo de frio, vestiu blusa e calções que Bastian retirou de uma das caixas da carroça e insistiu veementemente que ele pegasse.
Sentou-se numa das pedras próximas ao rio.
- Se importa se eu perguntar de quem era essa roupa?
- De alguém que não precisa mais.
- Você quer dizer, de alguém que você vendeu o cadáver? - desejou que seu tom tivesse soado um pouco descontraído.
Bastian encarou Graham por alguns momentos. A seriedade e a dureza naqueles olhos azuis e cansados incomodou um pouco a Graham, desejou que o velho falasse algo logo.
- Não - disse simplesmente numa voz sem emoção. - E não tenho mais interesse em vendê-lo, se é isso o que lhe preocupa. Está claramente vivo.
Respirou um tanto aliviado.
- Mas quem anda comprando cadáveres por aqui? Esse tipo de comércio não seria ilegal?
- Por aqui? Ninguém. Se é ilegal? Apenas para os tolos cegos e ignorantes.
Graham ficou encarando o chão pensativo por alguns minutos enquanto Bastian voltava para sua carroça e vasculhava a procura de algo. O velho parecia maluco, ainda mais após a última afirmação. Seus pensamentos, desde a hora que pusera os olhos no cavalo e na carroça do velho, era de se livrar dele e partir com a carroça, que parecia ter toda sorte de coisas escondida naquelas caixas. Por outro lado, sendo maluco ou não, ele o ajudara lhe trazendo até o rio quando não conseguia nem dar dois passos sozinhos, quem diria se lavar. E lhe dera roupas limpas. Velhas e gastas aqui e ali, mas era melhor do que as imundas de sangue. Só não entendia porque ele estava o ajudando.
Graham foi tirado de seus pensamentos quando Bastian apareceu novamente na sua frente, trazendo meio pão nas mãos. Graham agradeceu calorosamente e depois de duas dentadas agradeceu novamente de boca cheia. Bastian apenas sorriu e aguardou em silêncio enquanto Graham devorava o alimento. Quando restou apenas migalhas em sua mãos Graham encarou o velho sem saber exatamente o que falar.
- Por que está me ajudando?
Bastian ajeitou a postura e sorriu novamente.
- Tive meus dias e meus motivos para viver somente para mim mesmo. Estou velho agora e cheio de amarguras. Um velho pode viver seus últimos dias nessa terra tentando fazer algo de bom, não? Mesmo quando isso inclui resgatar homens que não tem para onde ir, dormindo na beira da estrada.
- Isso pode acabar te matando um dia. Chamando homens desconhecidos para subir na sua carroça.
- Se assim os deuses quiserem, que seja. E não é todo dia que o corpo que você arrasta acaba se mostrando alguém que passa por problemas e que precisa de ajuda. Talvez os deuses tenham me colocado em seu caminho por algum motivo.
- Alguém que passa por problemas?
O velho riu.
- Não irei perguntar o que o levou a dormir na estrada, nem de quem era o sangue em suas roupas, mas se quiser alguém para conversar estou bem aqui. A dor e o vazio estampado em seu rosto quando perguntei se tinha pra onde ir, reconheço à quilômetros de distância.
Graham encarou Bastian sem dizer nada. A bondade cega no olhar do velho deixou um aperto no coração de Graham, pois o lembrava de James, que sempre fora o irmão mais bondoso e atencioso com quem quer que fosse, nunca carregando mágoas. No fundo, Graham achava que o irmão, onde quer que estivesse, estaria o perdoando também.
- Talvez não esteja pronto para falar sobre isso agora - disse Bastian quebrando o silêncio. - O tempo está passando e preciso ir andando, tenho assuntos para tratar em outros lugares. Se quiser tem espaço para mais um na parte de trás da carroça. Sabe, ando precisando de um ajudante também, a idade está avançando mais rápido do que eu esperava.
Graham passou a mão pelos cabelos já secos. Não tinha para onde ir, muito menos onde dormir ou o que comer. Sua família o odiava e não o queria por perto. Sem querer pensar muito sobre o assunto, acenou em silêncio, porém, decidido.
- Ótimo! - Bastian esfregou as mãos animadamente. - Vai ser ótimo ter com quem conversar.
Bastian voltou alegremente para as rédeas da carroça. Graham apanhou suas roupas que estavam estendidas sobre uma pedra sob o sol. A camisa não havia secado completamente ainda, porém a dobrou com cuidado e colocou junto a calça. Teria que guardar essa muda com cuidado, era tudo o que ele possuía para passar o que quer que viesse pela frente. Caminhando em direção a carroça sentiu algumas pedrinhas no bolso da calça. Ao tentar se livrar percebeu que não eram pedrinhas, e sim, moedas. Era como se uma mão de ferro apertasse seu coração ao lembrar da expressão de Lena ao atirar aquelas moedas contra seu peito. Caminhou até Bastian.
- Creio que eu tenha dado mais prejuízo do que o lucro imaginado inicialmente. Tome essas moedas, por eu ainda estar vivo.