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O Reino Oculto - Capítulo 14




CAPÍTULO 14


  O grande recinto que se assemelhava a um pub era cheio de mesas redondas espalhadas pelo local e estava sempre cheio. Pessoas entravam oferecendo alguns objetos, partes de animais para ensopados e outros apenas sussurravam segredos ao ouvido de Migeal, dono do pub. Sentavam-se às mesas e eram servidos do equivalente ao que fora oferecido.
  As tarefas de Graham não passavam de ser cordial com os clientes, manter o local limpo e servir as bebidas no balcão. Era fácil demais e não tomava nenhum esforço de sua pessoa. Apenas lutou nos primeiros dias para conhecer todas as bebidas diferentes que serviam ali. Entre elas, o arake extra mélico e o airag de cabra, além do bom e velho vinho de romã, whisky, cerveja e hidromel. Bastian lhe dera uma longa aula em casa para que ele não parecesse tão deslocado do local quanto realmente era - ele não havia revelado a Migeal que Graham viera de fora dos limites da vila.
  Migeal era um homem corpulento, alto e sério, porém muito amigável. Sua esposa, Agda, e sua pequena filha, Dulce, o visitavam e passavam o dia ajudando nos afazeres do pub às vezes, como Migael lhe avisara. No primeiro dia de sua visita, Agda se mostrou muito feliz ao ver que o esposo havia conseguido alguém para ajudar com o atendimento.
  - É muita bondade sua se oferecer para nos ajudar - dizia numa alegre satisfação. - Assim tenho mais tempo para cuidar da Duc. Falando nela, onde a danadinha se enfiou? - dava voltas pelas mesas se abaixando, a procura de algum sinal da filha.
  - Agda, não me diga que ela trouxe aquilo de novo - Migeal tinha a voz pesada com o desânimo.
  - Eu não vou dizer nada - a mulher ergueu seu rosto acima de uma das mesas, com um olhar de culpa, porém sem remorso.
  - Dulce - o homem resmungou indo em direção à cozinha.
  - Você sabe como ela é apegada, Migeal - disse a mulher delicadamente, seguindo o marido.
  Graham ficou sozinho no balcão, um pouco nervoso. Estava um pouco cedo e não havia praticamente ninguém no pub. Aproveitou o tempo de sobra para tirar o pó dos copos pela terceira vez, poliu e os dispôs simetricamente organizados em cima do balcão, esperando a chegada dos primeiros clientes. Colocou os rótulos das bebidas atrás de si virado para o lado correto e se abaixou para ver se havia alguma coisa a mais fora do lugar. Tudo parecia em ordem. Copos reservas, tigelas de madeiras, de cerâmica, panos reservas para limpeza, cestas com frutas e um grande cesto com amendoim, que estava se mexendo. Graham se levantou, satisfeito, e olhou novamente para o cesto, com os olhos arregalados. Ele não poderia estar se mexendo, poderia? Após observar longamente o cesto, que agora encontrava-se imóvel, decidiu que vira coisas apenas em sua imaginação. Pôs-se a passar o pano aleatoriamente pelo balcão, quando, com um baque surdo, o cesto começou a rolar no chão espalhando todo o amendoim.
  Graham deu um pulo para trás com o coração batendo em sua garganta, uma mão em sua boca para não soltar um grito e a outra apertando com força a borda do balcão. Ficou encarando, gélido, o cesto caído inerte no chão. Recompondo-se, ele se abaixou lentamente para olhar o vão onde o cesto se encontrava segundos antes. Um grande vulto rosa se mexia soltando silvos agudos, vindo em sua direção. Graham, agindo por instinto, agitou o pano que segurava em suas mãos contra o animal que, ao sentir o pano chicotear contra suas costelas, avançou contra a mão de Graham, cravando suas garras e dentes na parte mais carnuda abaixo do polegar. Desta vez ele não conseguira se conter, gritou de dor e susto, caído no chão com a mão balançando no ar, tentando se livrar da mordida da criatura.
  - Lady Rashne! - uma voz aguda de criança cortou o aposento. - O que você está fazendo com a Lady Rashne? Solta ela.
  Numa confusão de corpos, Graham sentiu sua mão se livrar das garras e dentes. Sentou-se, assustado, aninhando sua mão atacada sob a mão boa e encarou uma garotinha de marias chiquinhas e o rosto em fúria. Em seus braços, acariciava, o que agora parecia, um pequenino animal de pelagem rosa que se assemelhava à um bichano comum, porém com as pernas mais curtas e com pequenos chifres sobressaindo a pelagem em sua cabeça. Com os olhos amarelos, ainda mostrava os dentes afiados para Graham.
  - Duc! Eu avisei para não trazer esse animal para o trabalho do papai - Migael apareceu de supetão, com Agda logo atrás, observando a cena com espanto. - Que gritaria foi essa?
  - Mas papai, eu não posso deixar Lady Rashne sozinha em casa! - protestou a menina num tom choroso.
  - Então você deveria cuidar melhor dela e não deixá-la solta por aí - disse Agda. - Venha com a mamãe, vamos achar um local seguro para a Lady Rashne.
  - Eu só queria escondê-la para que o papai não a achasse - choramingou a menina.
  As duas saíram em direção aos fundos do pub, deixando um Migael perplexo.
  - Não mando mais nem em meu próprio pub. Mas quem é que tem coragem de argumentar com mulheres decididas? - riu-se sozinho, encarando Graham ainda no chão. - Você está bem, amigo? Fizeram uma bela sujeira, não?
  - Estou bem, não se preocupe - levantou-se envergonhado. - Eu vou dar um jeito nisso rapidamente, não se preocupe. Eu sinto muito.
  Passou o dia sentindo uma leve dor ao redor dos dois furos em sua mão, e, onde fora arranhado, ardia como se estivesse em carne viva pelo fim do dia. Ao chegar em casa de noite, sua mão já estava levemente inchada.
  - Toda criança possui um Rashne! Eles são inofensivos! - ria-se Bastian, à mesa.
  - Não tem graça, Bast. Aquela criatura me atacou! Não temos esse tipo de animais de onde vim, eu levei um baita susto - Bastian ainda ria abertamente de Graham, que cedeu e riu de sua situação também. - Atacado por um animal de estimação de uma garotinha mimada. Migeal deve ter me achado um imbecil.
  Devoravam uma torta de maçãs verdes que Migael dera a Graham para levar para casa, como um pedido de desculpa pelo ocorrido. Graham lutava para comer com a mão esquerda, pois sua mão destra estava incrivelmente dolorida.
  - Como acha que vai estar para trabalhar amanhã? - Bastian apontava o garfo para a mão de Graham. - Sabe, mordida de Rashnes não costumam dar esse efeito nas pessoas.
  - Estará bem. Preciso apenas dormir e descansar e ela voltará ao normal.
  Mas ela não voltou ao normal. Estava inchando e ficando rígida, mas Graham não iria pedir licença de seu trabalho. Não queria mostrar a Migael que era fraco e dar indícios de que não era dali. Utilizou de blusas de mangas compridas para esconder sua mão inchada e se concentrava para usar apenas a mão esquerda, para não provocar dores na outra.
 Na noite seguinte, sua mão já estava tomando uma coloração roxa e inchando até perto do cotovelo, dando uma aparência grotesca ao seu braço.
 - Estive conversando com Eméreter essa manhã. Falávamos sobre você - anunciou Bastian, sentando-se na cadeira estofada ao lado de Graham.
 Graham, que estava esquentando água na lareira, ergueu os olhos do fogo para Bastian, numa mistura de curiosidade e espanto. Ainda não havia tido uma conversa com ela desde que a maga lhe falara sobre James. Bastian fixou o olhar no braço de Graham.
 - O que aconteceu com você ontem poderia ser mais grave. Aliás, esta mão parece de fato estar se revelando como algo grave.
 Graham sabia onde ele queria chegar, mas ele não estava querendo procurar Eméreter para curar sua mão. Queria qualquer desculpa para evitar estar sob o olhar dela novamente.
 - Não é nada demais - disse apenas, voltando seu olhar para o fogo. - Eu mesmo estou preparando um chá, irei me curar sozinho - despejou a água quente numa pequena tigela.
 Bastian se aproximou e cheirou o líquido amarelado.
 - Isto não é chá. É pura água com sal.
 - Na qual irei repousar minha mão para desinchar.
 - Talvez o conceito de chá seja diferente no seu reino - disse voltando para a sua cadeira. - Mas não seja tolo, Graham. Procure Eméreter, ela tratará da sua mão num piscar de olhos sem que você perceba. E além do mais, não era exatamente sobre isso que estávamos conversando.
 - Não? - perguntou curioso enquanto mergulhava sua mão na solução. - E o que seria?
 - Essa vila abriga coisas que poderiam ir além da sua imaginação. Vimos o que pode acontecer quando se lida com coisas que não sabemos como lidar - apontou para a mão de Graham descansando pateticamente dentro da tigela. - Você deveria ter o direito de conhecer e entender as coisas por aqui.
 - E não tenho? Posso andar livremente por onde eu quiser e conhecer o que eu quiser. E você me explica o que não entendo.
 - Não, não - abanou a mão displicentemente. - Um professor, queremos dizer.
 Graham riu, sem saber se deveria o levar a sério.
 - Um professor? Como uma criança?
 - Tem muito o que conhecer aqui e eu não sou a pessoa mais adequada para te ensinar. Eméreter insiste que você tenha um professor.
 - Por que ela insistiria? Por que ela faz questão de que eu conheça essa vila tão bem?
 - Ela deve ter as suas razões. Mas você deveria se alegrar, é oficialmente um de nós agora. E Eméreter quer se certificar disso - ria alegre.
 - E o que eu estarei aprendendo com esse professor?
 - Coisas como que tipo de animais que vivem aqui, quais você deveria evitar e porque, história do nosso povo, como as coisas funcionam e como lidar com as plantas, essas coisas todas. Você teria que conversar com ela saber exatamente o que iria aprender. Ela quer vê-lo amanhã cedo.
 Graham fechou a cara.
 - Vamos, você sabe que você quer - ria-se. - Não sei porque anda evitando ela. E se continuar com essa mão nessa água, irá precisar vê-la ainda essa noite - disse se retirando em direção à escada sem rodeios.
 Graham olhou para sua mão e a mordida havia passado de roxa para um azulado quase preto e sua mão inchado o dobro de seu tamanho anterior em contato com a água cheia de sal. Xingou baixinho para não deixar Bastian ouvir sua frustração.

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