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O Reino Oculto - Capítulo 13





CAPÍTULO 13


 Estava transtornado, sentia-se virado do avesso. Isso ia contra tudo o que ele acreditava. Como poderia seu irmão, James, ter sangue mágico? Por que ele? Quantos mais de sua família poderiam ser? Seu pai nunca soubera ou teria ele mantido segredo dele? Não, seu pai nunca faria isso. Ou faria? Eram dúvidas que nunca seriam respondidas, já que nem seu pai nem seu irmão estavam vivos para respondê-lo. Cerrou os punhos contra a parede, liberando sua fúria num grito mudo.
 Lutara toda a sua vida contra essa verdade. Sentia-se um grande idiota agora. Sentia-se ainda mais culpado pela morte de James, que crescera vendo-o detestar e abominar as histórias que ouviam, clamando orgulhosamente que não tinha o sangue infectado com magia. Será que algum dia ele quis lhe contar? Muito provável que tivesse se sentido tentado, porém ficara com medo de sua reação.
 Mas era seu irmão, jamais o deixaria de lado. Cuidaria dele como sempre prometera ao seu pai. Só esqueceu de deixar isso implícito, pois estava ocupado demais tentando recuperar seu lugar na corte. Lágrimas quentes e vergonhosas jorraram em seu rosto pelo seu irmão.
 Mas isso seria um problema para ele também, pensou logo após. Como ele poderia levar sua família de volta à corte se seu irmão fosse mesmo um bruxo? Preferiu não pensar sobre isso agora. Lavou seu rosto com água e se encarou num espelho velho e manchado. Seu nariz estava mais torto que o normal, o hematoma agora um pouco amarelado. Fazia um tempo desde que não encarava direito sua própria imagem. Uma espessa barba enchia seu rosto, e mesmo assim ainda podia-se ver onde os galhos apertara contra sua boca. Seus punhos cerraram-se com força novamente ao lembrar-se de Eméreter.
 - Você devia ter ido comemorar conosco - ouviu Bastian falar da cozinha. - Foi muito bonito. E farto também - ouviu a risada e baques surdos vindo da palma das mãos de Bastian contra sua própria barriga.
 Graham vira a festa que estavam tendo na praça central da vila. Todos pareciam estar lá, dançando e saudando o garoto. Porém Graham preferiu passar despercebido e ir direto para casa de Bastian, não estava emocionalmente bem para socializar. Desviou o olhar de seus olhos pesados no espelho e dirigiu-se até a cozinha. Bastian estava sentado à mesa com uma caneca de cerveja ainda em sua mão e outra à sua frente, ao lado de um pequeno barril de mesa.
 - Onde você passou durante todo esse tempo? Separei uma caneca para você, sirva-se.
 Graham sentou-se na cadeira vaga, bebendo de sua caneca.
 - Estive por aqui mesmo.
 - Bem, você perdeu uma festa e tanto - riu estridente.
 Graham ouviu pacientemente todos os relatos detalhados da festa sob o ponto de vista de um Bastian levemente embriagado. As comidas, as bebidas, as brincadeiras, as danças, as pinturas nas crianças, as adorações à Eméreter e orações aos seres que protegem a vila para não acontecer outra tragédia novamente. Graham apenas bebericava de sua caneca, sentindo-se pendurado em cada palavra de Bastian, esperando para ver se ele falaria novamente sobre os tais seres para os quais rezaram. Ficou tentado a perguntar, mas Bastian parecia estar mais interessado em devanear sobre como tirara a viúva Seline para dançar.
 Sentia um grande vazio a cada risada que dava com Bastian apenas por educação. Julgando que seria o mais sensato a se fazer, acompanhou Bastian escada acima até seus aposentos, enquanto este tagarelava agora sobre coisas que ele não entendia. Ao colocá-lo na cama, foi como um golpe fatal, a risada cessou de repente e em seguida o velho já estava ferrado no sono.
 Desceu a escada a passos leves, apanhou o pequeno barril da cozinha junto com sua caneca e afundou-se na cadeira estofada e aquecida, devido à lareira acesa, na pequena sala. O silêncio e a melancolia o rodeando novamente. Com os olhos vidrados no fogo da lareira, ele bebeu, imaginando se John já teria encontrado espaço em seu coração de criança para perdoar seu velho pai.

-

 Graham nunca conhecera nada além da região em que morava em seu próprio reino. Conhecia as terras que foram de seu pai, e que foram suas, posteriormente. Nada grande nem que desse orgulho, apenas com espaço para sua velha casa e algumas plantações. Conhecia as terras ao redor da sua. Maiores e com plantações mais fartas, que eram alvo constante de saqueadores, assim como a sua também. Aquela região era conhecida como as terras de ninguém, embora elas tivessem donos e esses tivessem que pagar impostos exorbitantes àqueles que a chamavam de as terras de ninguém.
 Conhecia também o bosque e a ruazinha que levava à pequena cidade, onde viajantes, cavaleiros e aventureiros paravam para comer, beber e dormir, sozinhos ou com a companhia de sua preferência. Na cidade, conhecia também os muros altos que cercavam a fortaleza real, que se erguia no alto para todos verem seu esplendor. Durante muitos anos, ficara naqueles portões pensando num jeito de poder entrar.
 Não conhecia os outros cantos do reino, que era enorme, segundo todos os viajantes que por lá passavam. Tantas terras e outros reinos inteiros conquistados no sangue para juntá-los num só. Um único rei comandando meio mundo. Graham não conheceu essas terras, não poderia dizer com suas próprias palavras qual a extensão delas. Mas não se importava agora, porque ele conhecia terras que seu rei nunca conhecera, nem conquistara. Era algo novo e ele que estava desbravando.
 Conforme os dias que passava ali, ia se apegando aos costumes e se encantando com as coisas novas que descobria. Descobriu que havia mais além da praça central. Havia plantações de trigo à oeste, de algodão mais ao sul e, após as pequenas montanhas, lagos e gramados verdes sob um sol extremamente agradável.
  E todos ali viviam de igual para igual. Seu comércio também não funcionava como no reino. Ali ninguém usava moedas, nunca ouviram falar. No lugar, usavam um sistema de trocas. Cada um chegava à um consenso devido ao tamanho e quantidade de alimento ou objeto envolvido na troca. Serviços também eram oferecidos com o mesmo sistema. Graham sentiu-se extremamente idiota por ter dado suas moedas à Bastian achando que elas teriam algum valor para ele. Cada um chegava ao fim da negociação com uma troca justa, a passo que ali não havia intrigas, roubos, discriminação ou injustiça. Mas também não havia contradições às ordens de Eméreter.
 Passava os dias acordando cedo pela manhã, andando pela praça, indo até as montanhas e passeando ao redor do lago após as montanhas. Levara um tempo até se sentir confortável para isso, pois apenas pensava nos tais cães selvagens, até que Bastian o garantira de que não aconteceria de novo. Mais ainda tomava o cuidado para não se aproximar demais da floresta. Sentia que um pouco de cautela não faria mal a ninguém.
 Em suas manhãs ali pelo lago, observando as pessoas andando sob o sol e fazendo seus desjejum entre amigos e familiares, ficava pensando na sua própria família lá do outro lado, longe de seu alcance. Era algo muito chocante o que Eméreter lhe revelara e a cada dia sentia um pouco mais de curiosidade sobre o que havia realmente acontecido com seus antepassados e quem eles eram. Mas deixava essa curiosidade acumular pouco a pouco, a cada manhã. Durante a tarde, ele esquecia essa curiosidade se ocupando com os afazeres num pub que descobrira ter a melhor cerveja e comida da praça. Limpava e organizava em troca de refeições grátis. O dono era um grande amigo de Bastian e Graham o pediu por essa oportunidade de se misturar com as pessoas e aos seus costumes.
 - Você sempre poderá comer e beber o quanto quiser aqui comigo. Não precisa oferecer seu trabalho a ninguém - argumentou Bastian.
 - Quero me sentir útil enquanto eu estiver por aqui - defendia-se Graham que, além disso, queria também fugir das habilidades culinárias não tão habilidosas do amigo sem querer ofendê-lo.
 Voltava para a casa de Bastian tarde da noite, trocavam suas experiências diárias e iam dormir. No dia seguinte, recomeçava tudo de novo.

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