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O Reino Oculto - Capítulo 12





CAPÍTULO 12


- Por que você não impediu o ataque? - perguntou Graham.
- Temos muito o que conversar - disse apenas. - Por que não façamos aqui dentro? 
Entrou na árvore e Graham a seguiu. Ao passar pelo arco de madeira, sentiu novamente aquele cheiro amadeirado preenchendo sua cabeça. Eméreter indicou um dos bancos para Graham se sentar e apanhou um balde com água e retirou um pano de dentro. 
- Ontem você disse ao Bastian que usaria esse altar ainda hoje pela manhã. Se sabia o que iria acontecer, por que não impediu a pobre criança de ser atacada?
Eméreter torceu o pano com uma agilidade e força que não condiziam com suas mãos finas e de idade avançada.
- Eu não controlo o futuro, apenas sei o que é necessário para me precaver.
Abriu o pano e passou no altar de pedra, limpando as pequenas manchas.
Graham ponderou tudo e sentou-se, por fim.
- Eu não estou entendendo. Quem é você? Algum tipo de bruxa? Há mais de você por ai? Por que está protegendo essas pessoas aqui? - colocou para fora todas as perguntas de uma só vez.
- Protejo as pessoas dessa vila porque elas eram tão desamparadas quanto eu na época - descansou o pano molhado e secou suas mãos delicadas em outro e sentou-se de frente para Graham. - Tão sem lar quanto eu, fugindo da tirania de seu rei, que matava seus iguais como esporte. Acolhi essas pessoas aqui, longos anos atrás, e as protegerei até o meu fim.
"De onde eu vim, há muitos como eu - continuou. - Somos uma classe de magos muito poderosa. Por esse reino já passaram alguns de nós, você deveria saber melhor do que ninguém.
Seus olhos cintilavam como chamas em sua direção, com um certo divertimento ao ver Graham pensativo e confuso, como se estivesse tentando evitar certas ideias. E ele realmente estava. O quadro de seu antigo familiar ardendo no fogo, atirado por Bard, aquele soldado se benzendo antes de se aproximar de sua casa, os boatos que ouvia desde pequeno difamando sua família. Expulsos da corte, alguns queimados e enforcados, outros apenas enxotados como cães sarnentos. 
- Eu vejo em você - Eméreter inclinou-se levemente para frente - Todas as histórias que você ouvia eram verdades, não foram apenas inventadas para feri-lo. 
Graham se exasperou, levantando-se.
- O que quer dizer então? Minha família eram magos? Temos sangue mágico? O que eu deveria fazer agora, me transformar em coelho? Ler o futuro dos outros? Porque eu não me sinto como se pudesse fazer nada dessas coisas. Você está enganada - atirou as últimas palavras como se pudesse magoa-la.
Eméreter endireitou-se em seu banco novamente, surpresa com a rudez de seu convidado.
- Não se sente como se pudesse porque você não pode. Você e eu não compartilhamos do mesmo sangue. Durante os anos nossos antepassados foram se misturando, mas a magia não floresce em toda a linhagem quando não pura. Aquele cuja magia o socorria, mesmo que fracamente, derramou seu sangue antes de dar continuidade à sua linhagem. Tão novo. Eu senti aqui quando ele pereceu - seus dedos finos se apertavam contra seu peito, seus olhos marejando de leve. Foi quando Graham percebeu onde tinha visto aqueles olhos pela primeira vez.
- James? - sua voz falhava.
Sentou-se lentamente se segurando na parede, mal se atrevendo a acreditar. Sentiu um forte aperto no peito ao lembrar como o irmão partira tão de repente. Com toda a sua coragem e bravura, tentando defender sua família. Aquele brilho que vira momentaneamente em seus olhos quando se tornara aquela figura tão sombria, o mesmo que via agora em Eméreter.
- Você nunca percebeu que ele era diferente? - perguntou, incrédula.
- Ele nunca foi... Nunca deu algum sinal de ser... Só pode estar enganada.
- Você sabe que não estou. Talvez ele não tenha dado sinais muito fortes, talvez tenha tentado esconder, por estar com medo. Mas eu senti a força dele se reunindo em seus últimos segundos. Mesmo que eu não o tenha conhecido, ele era um de nós e sinto o pesar. Diga-me, como aconteceu?
Graham não poderia repetir em voz alta como James morrera e não aceitaria uma estranha perguntando sobre seu irmão. Levantou-se novamente, furioso, querendo fugir do assunto.
- Se era um de vocês então por que não o trouxe para viver sob a sua proteção? 
Eméreter silenciou-se por alguns segundos, inspirou o ar longa e profundamente, alargando as narinas e arqueando apenas uma das sobrancelhas. 
- Eu não poderia. Não poderia tirá-lo de sua família e a existência dessa vila, ninguém, além dos que já vivem aqui, deveria saber.
- Era o direito dele saber! Se ele realmente era um... - não conseguiria repetir em voz alta. - Ele tinha o direito! Agora está morto porque você preferiu não sair dessa vila por causa dessas pessoas, mesmo ele sendo do seu sangue - estava gritando.
- A sobrevivência de muitos justifica o sacrifício de poucos. E não jogue a culpa da morte dele para mim, sabes muito bem quem foi o culpado disso.
Graham, arfando de raiva, encarou Eméreter, que ainda sustentava a mesma expressão fria e calculada. 
- Vamos falar então sobre algo que cabe à sua culpa - cuspiu as palavras como se fossem veneno. - Por que não salvou o filho de Bastian? Por que martirizou o homem fazendo-o sacrificar o próprio filho?
Graham conseguira quebrar a expressão fria da maga. Crispando os lábios, ela levantou-se finalmente.
- Não havia nada que eu pudesse fazer - virou-se de costas, apoiando os braços em seu balcão, que sustentava todos os seus instrumentos estranhos.
- Ou será que apenas faz o que lhe convém? - provocou, Graham. - É uma maga! Usasse a sua mágica! 
Eméreter virou-se tão de repente quanto a pancada que Graham sentiu em seu peito. Sendo jogado contra a parede da árvore, caiu sentado em seu banco novamente. Pequenos galhos brotaram da parede de madeira de ambos lados de sua cabeça e se envolveram contra sua boca. Contemplou Eméreter, de olhos brilhando lilás intensamente, o dedo apontado ameaçadoramente contra seu peito.
- Chegaste ontem a esta vila, não ouse a me dizer como governar essas pessoas - fitou Graham, como se avaliasse o que ainda faria com ele. - Pense sobre o seu passado enquanto estiver aqui - disse por fim -, você tem muito o que aprender, mas, enquanto isso, não se atreva a tirar a minha paciência.

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