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O Reino Oculto - Capítulo 11





CAPÍTULO 11

Avistou a árvore ao longe ao tomar a estradinha de terra. Era fascinante vê-la, como foi na primeira vez. Era mais uma coisa que gostaria de poder mostrar ao seu pequeno John. Na metade do caminho, sentiu leves arrepios ao passar pela casa velada novamente.
Havia um aglomerado de pessoas amontoados ao redor da árvore. De longe reconheceu a figura magra e os cabelos de algodão de Bastian. Estava conversando com uma jovem mulher ao lado de um homem de cabelos longos.
- Graham, filho! - Bastian erguia os braços ao vê-lo se aproximando.
Estava começando a se sentir desconfortável ao ser chamado de filho pelo velho.
- Estes são Mary e Edward. Pais de William, do qual você já deve ter ouvido falar, eu suponho.
Os olhos de ambos estavam vermelhos e inchados, analisando Graham com deliberada curiosidade - o que o faziam parecer um casal de desvairados somando seus trajes sujos de sangue, como se fossem açougueiros.
- Ouvi, sim. Sinto muito pelo o que aconteceu.
- Ele ficará bem. Não há nada que nossa grande salvadora não possa fazer - a mulher olhou fervorosamente para a árvore.
Bastian acenou levemente com a cabeça, o olhar vagando ao longe tentando esconder uma certa tristeza súbita.
Graham se atentou à árvore e pode ouvir um leve canto ou oração vindo dela. No chão da entrada, podia-se ver manchas de sangue que faziam uma trilha até uma das carroças do outro lado. Além dos três ali, haviam outras pessoas também em pé e outras sentadas no gramado. Parentes ou curiosos, ele não saberia dizer, mas havia um grande número de crianças ali. Olhou para Bastian com um olhar significativo e este entendeu. Pedindo desculpas ao casal, se afastou com Graham.
- O que exatamente aconteceu? Cães selvagens?
- Algo não muito comum de se ver por aqui. O garoto estava indo para a aula junto com outras crianças quando se afastou sozinho para apanhar alguns frutos que avistou numa árvore afastada na mata. Para o azar dele, havia dois cães selvagens adulto por ali. Uma tragédia. Chegou aqui quase sem vida.
- E por que eles estariam lá? Esses cães, você disse que não era comum eles por aqui.
Bastian ficou pensativo.
- Talvez tenham se perdido e se afastado da matilha.
Graham olhou para toda a mata, árvores e montanhas que cercavam a vila e fixou um lembrete mental de nunca chegar perto demais.
- Esses animais, se chagaram tão perto, não poderiam invadir a vila também?
Bastian olhou para as montanhas, empertigado.
- Nah. Não com Eméreter aqui - e voltou para a presença dos pais do garoto, encerrando o assunto.
Ficaram por um bom tempo ali esperando algo acontecer ou surgir alguma novidade sobre o garoto. O estômago de Graham começou a doer de fome à medida que o sol ia andando sobre suas cabeças. O silêncio modorrento era coroado de tempos em tempos com o soluços de Mary, ajoelhada com seu marido ao seu lado.
Então, sob nenhum aviso, Eméreter surgiu entre as folhagens na entrada da árvore, com uma toga branca e salpicada de sangue aqui e ali. Ergueu os braços em direção ao jovem casal.
- Rejubilem-se!
Anunciou dando espaço para um frágil e pálido garoto passar por entre as folhagens. Com finas linhas prateadas serpenteando pelos braços, pernas e bochechas, onde deveriam conter cicatrizes grotescas, o garoto deu pequenos passos trêmulos.
- William!
Com um grito choroso, Mary se levantou correndo aos tropeços para cair de joelhos novamente em frente ao seu filho para abraçá-lo. O pai do garoto também caiu de joelhos, porém, este, de frente à Eméreter.
- Obrigado, ó, grande Eméreter, salvadora e protetora. Obrigado por salvar nosso filho - plantou-lhe um beijo em suas mãos finas.
Os vivas e aplausos vibraram pelo local e Bastian contribuiu avidamente. As crianças, meninos e meninas de todas as idades, tiraram o pequeno Will dos braços de sua mãe e o saudaram com abraços, despenteando seus cabelos como se ele tivesse acabado de ganhar uma justa. No momento seguinte, todos entoavam uma canção. Crianças e adultos cantando alegremente ao ritmo de alguns instrumentos de mãos que tiraram dos bolsos ou das carroças.
E, como numa procissão, dois meninos altos e fortes ergueram o pequeno Will acima de todos e começaram a andar. As crianças na frente, cantando e dançando, e os adultos atrás, seguindo em direção à praça. Bastian, cantando e gingando alegremente, se juntou à comemoração.
Quando todos estavam ao longe, virando a esquina, a música foi se dissipando, permitindo que o silêncio reinasse novamente ao redor da árvore. Virou-se para a mesma e viu Eméreter parada ainda no mesmo lugar, observando Graham, que não havia se juntado ao povo nem aos aplausos.
- Não foi o bastante para te impressionar? - perguntou serenamente.
- Há muitas coisas que me impressionam - disse se aproximando lentamente. - Mas nem todas elas me fazem querer bater palmas.
Eméreter deixou escapar um meio riso pelo nariz. Sustentou um olhar ainda sereno com seus olhos lilás, agora, um pouco pálidos devido à luz do sol. Mas eles ainda continham um certo brilho intrigante, algo que despertava em Graham um sentimento que ele não conseguia explicar. Algo meio novo e meio familiar.

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