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O Reino Oculto - Capítulo 10





CAPÍTULO 10

O lugar era escuro e muito amplo. Velas de todas as cores encontravam-se espalhadas por ali. Uma garota e um garoto, ambos com não mais do que 15 anos, reparou Graham, levaram os corpos por uma das portas, silenciosamente.
- Aprendizes de Eméreter - explicou Bastian. - Fizeram voto de silêncio.
Graham deixou o lugar para trás cheio de perguntas a fazer. No caminho de volta para a movimentação da cidade pegaram uma chuva extremamente gelada.
- Você poderá ficar comigo - anunciou Bastian tirando excesso de água do rosto com as mãos. - Minha casa é pequena mas servirá.
As ruas de pedras já não estavam mais tão cheia como antes devido à chuva, porém, ainda se via algumas crianças brincando na chuva e adultos correndo procurando abrigo. A casa de Bastian era ali perto da movimentação, ao lado de um mercadinho de frutas. Um pequeno galpão ao lado foi onde deixaram a carroça junto com Malhado. Entrando pela porta lateral, agradecidos por estarem longe da chuva agora, tinham acesso à uma sala toda de pedra, com apenas duas cadeiras estofadas viradas para uma lareira. Bastian adentrou a porta da esquerda e logo voltou com algumas lenhas na mão. A sala era pequena, de modo que a lareira a preencheu com calor quase que imediatamente. E foi onde ficaram a maior parte da noite após o banho e a janta - vários vegetais cozidos com carne de galinha.
A chuva ainda caia forte quando Graham se aconchegou na cama do andar de baixo, que pertencera ao filho de Bastian. Não demorou muito para adormecer, tinha acontecido coisas demais para um dia só.

Estava de volta ao seu casebre, parado na cozinha. Ouviu a voz de John aos fundos e quis ir atrás de seu filho, vê-lo mais uma vez. Mas a aparição de James na porta de entrada o fez congelar onde estava. Seu irmão estava com uma braçada de lenha nos braços e as botas cheia de lama. Espalhando a lama para todo lado, largou a lenha sobre a mesa e riu para o irmão.
- O que está fazendo aqui Graham? Por que não vai lá fora nos ajudar? Já vai anoitecer, precisamos de sua ajuda.
James deu um passo na direção do irmão e este deu outros dois para trás. James estava morto, Graham não entendia porque ele estava ali, rindo, como se nada tivesse acontecido. Mas este sorriso logo desaparecera e seu rosto se contorceu de ódio.
- Vamos, Graham, venha conosco cavar a minha cova - James avançou na sua direção, colocando-o contra a parede, suas mãos apertando seu pescoço. - Venha ajudar, não posso cavar minha própria cova sozinho, posso?
James estava tão perto que Graham conseguia sentir seu bafo podre. Tentou gritar e se livrar das mãos do irmão, mas sua voz não saía e seu corpo parecia congelado. Estava ficando sufocado e sentindo a vida se esvair aos poucos de seu corpo quando sangue começou a escorrer da boca, do nariz e dos olhos de James. Então Graham percebeu que não estava olhando para James, e sim para o seu próprio rosto escorrendo sangue.
- NAAAAOO - sentou-se na cama com o coração disparado e a garganta doendo. Colocou a mão no rosto e o sentiu todo molhado. Olhou desesperado paras suas mãos e ficou aliviado ao ver apenas suor e não sangue.
Sentiu-se melhor ao descobrir que Bastian já não se encontrava mais dentro de casa para ouvir seu grito ou o que mais que ele tivesse falado enquanto dormia. Uma fatia de queijo e frutas secas foi o que achou de fácil acesso na pequena cozinha para tirar James de sua cabeça. Como não foi o suficiente, saiu para procurar Bastian. Malhado não se encontrava no galpão, de modo que deduziu que o velho deveria ter ido longe. Mesmo assim, saiu para dar uma olhada nas redondezas e conhecer a vizinhança.
Uma grande movimentação de pessoas com várias sacolas de comida na mão agitava a manhã naquela larga rua. O mercadinho de frutas do lado da casa de Bastian estava apinhado de gente, ainda assim, um homem corpulento e alto que andava entre os cliente a todo sorrisos, com um avental acinzentado, teve tempo de parar ao lado de Graham, observando-o com muita curiosidade.
- Dia.
- Bom dia, meu senhor - tentou parecer amistoso o bastante.
- Não sabia que Bastian tinha outros parentes por aqui. Qual o seu nome?
Graham achou que deveria ser realmente parecido com o filho de Bastian.
- Não, não. Não sou nenhum parente de Bastian. Me chamo Graham. E o senhor?
As sobrancelhas volumosas do homem se fecharam formando uma só.
- Tom. Tenho certeza de que nunca o vi aqui pelas redondezas. É novo por aqui?
- Sim, cheguei ontem.
Ao ver a expressão do homem Graham achou que essa não era a melhor resposta que poderia ter dado. Antes que ele pudesse perguntar mais alguma coisa, uma senhora de cabelo desgrenhado e roupas sujas na altura da cintura se aproximou com uma galinha viva nas mãos. O animal se debatia tentando escapar.
- Senhor Tomas, o que posso levar em troca desta? - ergueu o animal na altura dos olhos do homem.
- Galinhas?! Estou farto de galinhas! Não tenho espaço para mais galinhas! Não poderá trocar por nada hoje.
A pequena ave se debateu tanto aos gritos de Tom que acabou se soltando e voando na direção do homem corpulento. Agradecido pela senhora e sua galinha, Graham aproveitou a confusão e desceu a rua em direção à praça. Ficou pensando se deixaria Bastian com problemas. Ao julgar pela expressão do homem, imaginou que sim, afinal, essas não eram terras para se trazer estrangeiros a todo gosto.
Graham teve que tomar cuidado para não transitar pela praça esbarrando nas pessoas. Havia uma nota de burburio no ar. As pessoas sempre paravam para conversar ou passar alguma informação, como formiguinhas quando se encontram. As únicas palavras que conseguia captar ao seu redor era alguma coisa com "mais cedo" e outra com "mais tarde". Se perguntou qual seria o assunto.
A praça era circular e bem ampla, com várias casas comerciais circundando o local. Casas de tecidos, armazéns, boticários, ia observando enquanto passava em frente. Pubs e até mesmo bordéis se encontravam ali na praça central. Chegando na outra metade, via-se ferreiros, carpinteiros, tanoeiros, carroceiros e tecelões. Era a parte mais suja da praça.
Nas ruas era muito comum encontrar jovens e crianças com carrinhos cheios de tortas e guloseimas para vender. Graham resolveu se aproximar de um jovem rapaz que deveria estar entre 10 e 12 anos, anunciando tortas de peixe ao vento.
- Dia, meu bom senhor - disse alegremente ao vê-lo se aproximar. - Torta de atum? Bolinhos de bacalhau? Acabaram de sair do forno de minha mãe.
Olhou os bolinhos com formato tosco de peixe.
- Desculpa, mas estou sem dinheiro agora.
O garoto franziu a testa.
- Dinheiro?
- Sim, moedas - Graham parou pensando que ele provavelmente não saberia nada sobre o sistema local deles. - Como você vende suas tortas e bolinhos?
O garoto se remexeu trocando o peso de um pé para o outro, inclinando a cabeça de lado.
- Não vendemos, senhor, trocamos. Esqueceu de como as coisas funcionam?
- Sim, sim, trocamos - forçou uma risada. - Na verdade não estou querendo trocar nada, queria apenas uma informação. Todo mundo parece estar cochichando algo. Há alguma novidade acontecendo?
- Bom, até onde sei, a novidade é que o pequeno Will foi atacado por cães selvagens hoje cedo - disse friamente, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
- Quê?
- Ele já está sob os cuidados de Eméreter. Logo estará novinho em folha.
Ficou encarando o garoto enquanto processava as informações. Agradeceu e virou-lhe as costas atravessando a praça a procura da ruazinha que lavava à árvore. Provavelmente Bastian estaria lá também.
Caminhando a passos largos ficou pensando em cães selvagens. Nunca tinha ouvido falar. Deveria ter perguntado ao garoto onde exatamente os cães estavam na hora do ataque mas percebeu que quanto mais abria a boca mais estrangeiro se mostrava e mais as pessoas se mostravam hostis. Imaginou que ali naquele lugar deveria conter uma grande sorte de coisas das quais ele nunca ouvira falar e muita coisas a aprender.

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