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O Reino Oculto - Capítulo 5


 - Creio que eu tenha dado mais prejuízo do que o lucro imaginado inicialmente. Tome essas moedas, por eu ainda estar vivo.


CAPÍTULO 5 

Após recomeçarem a andar, Graham descobriu que Bastian era como ele, sem família - embora nenhum dos dois quisessem se alongar muito no assunto sobre como cada um ficara sem uma família. Andando por aí com Malhado, seu cavalo, levando e trazendo coisas em sua carroça para uma velha senhora. "Você irá conhecê-la no tempo certo" dizia.
Graham rearranjara as caixas para poder se acomodar melhor na parte de trás da carroça. Algumas delas estavam abertas, contendo várias maçãs, sacas de trigo e plantas que ele não reconhecia. Outras estavam fechadas e lacradas e foram difíceis de movê-las, devido ao peso. Logo Graham percebeu que abaixo das caixas pequenas haviam três grandes. Compridas e largas o bastante para ele deitar-se ali dentro. Um leve arrepio percorreu seu corpo. Estavam lacradas como as pequenas e reconheceu que apenas duas delas continha algo dentro e a terceira estava vazia. Preferiu não perguntar a Bastian sobre o conteúdo das caixas, mas começou a se perguntar se realmente fizera uma boa escolha ao se juntar ao velho.
Sentou-se sobre a caixa vazia e olhou ao seu redor. As árvores da floresta estavam ficando cada vez mais densa, o sol logo se tornaria um pontinho de luz que mal conseguiria penetrar naquele mar de árvores. Chegaram a um ponto em que Graham nunca havia nem chegado perto de entrar na floresta em toda a sua vida. Imaginou que a velha para quem Bastian trabalhava não deveria estar muito longe agora, ou seria possível alguém morar tão afastado da companhia humana da vila? Pensou em si mesmo e descobriu que se não fosse por Bastian, talvez ele mesmo teria se isolado no fundo da floresta, longe de todos e, principalmente, longe dos soldados do rei.
A mata estava ficando tão fechada que Malhado estava começando a ter dificuldades para passar, fazendo a carroça quase tombar para todos os lados cada vez que passava pelas grossas raízes das árvores e pedras. A floresta parecia estar querendo impedi-los de passar e Malhado e Bastian pareciam estar lutando juntos contra a vontade dela.
- Para onde exatamente estamos indo? - perguntou receoso.
- Ha! Achei que nunca iria perguntar - Bastian ria divertido. - Para além do rio.
- Além do rio? - Graham ria de nervoso. - Só pode estar brincando. É impossível sair deste reino.
- Para viajar comigo você terá que banir a palavra “impossível” do seu vocabulário - disse Bastian levantando o dedo indicador, num tom de quem sabe das coisas.
- Mas as lendas! Nunca ninguém conseguiu... Pessoas morreram... - Graham pensou em abandonar o velho que parecia completamente louco, mas ao olhar para trás se deu conta de que nunca conseguiria voltar naquela floresta sozinho.
- Lendas! - Bastian fez um gesto com a mão como se quisesse afastar a ideia displicentemente. - Bobagens. Bobagens que o seu rei enfia goela abaixo de vocês no lugar de comida.
- Mas os construtores, todos se recusaram a tentar erguer a ponte novamente. Ninguém quer nem chegar perto. Várias pessoas perderam a vida durante os séculos à mando dos reis antigos que ignoravam a fúria do rio. Até mesmo o nosso atual rei resolveu esquecer essa ponte, assim como o pai dele antes dele. Há quase um século que ninguém ao menos chega perto dessa ponte, você deveria saber.
Bastian apenas riu enquanto continuavam no caminho tortuoso. Graham já podia ouvir ao fundo o som da água correndo.
Seu pai sempre lhe contava a história sobre a ponte misteriosa. Ele mesmo também nunca havia visto a tal ponte com os próprios olhos, mas as histórias que contavam sobre ela corriam o reino todo. A perdição dos reis, a chamavam. Longe dos ouvido de tais, é claro. Nenhum rei gostava de ser lembrado de que havia algo que eles não conseguiam de maneira alguma conquistar. Mas as histórias diziam que todo e qualquer construtor que tentasse recuperar a velha ponte de madeira do fundo do rio, simplesmente morria de alguma forma. A maioria era levado pela correnteza, outros terminavam, misteriosamente, com alguma estaca da própria ponte em seu peito. Outros, tomados por alguma loucura súbita, atavam suas cordas nas árvores na margem do rio e davam um fim à sua própria jornada ali mesmo. Todos os reis arderam com a vontade de atravessar aquele rio e conquistar o que quer que houvesse do outro lado para aumentar sua glória e riquezas. Até mesmo padres foram chamados para acompanhar o trabalho dos construtores e tentar exorcizar a tal ponte. Todos morreram como qualquer outro construtor. Nada tirava a ponte do fundo daquelas águas, nem mesmo a construção de uma nova ponte parecia possível ali onde era o único local de possível travessia para o outro lado. O mesmo se aplicava às embarcações. Todas naufragadas. Com o tempo foi ficando cada vez mais difícil conseguir alguém que se dispusesse a chegar perto da ponte, muitos iam sob ameaça de morte, até que chegaram ao ponto de preferir morrer pela espada do que morrer enfrentando algo tenebroso e sombrio. Com o tempo ela fora esquecida.
Graham não conseguia acreditar que o velho estava mesmo crendo que ia passar para além do rio. Como ele faria isso? Teria ele descoberto alguma forma que ninguém nunca havia pensado antes? A curiosidade de Graham começou a queimar dentro de si e esperou para ver o que aconteceria.
- Muito bem, filho - disse Bastian com calma quando as  árvores começaram a se abrir e dar mais espaço para a carroça passar, entregando uma ampla vista do rio. - Aconteça o que acontecer, fique sentado onde você está.
O caminho acabava ali e rio estava passando à sua frente. O sol brilhava forte acima de suas cabeças, deveria estar marcando agora metade do dia. Protegeu seus olhos da luz repentina do sol, mas mesmo assim pode ver ali o início de uma ponte, com quase 3 metros de largura. Malhado parou em frente à ela, bateu as patas dianteiras, relinchando, impacientemente.
- Calma, calma, já vamos - sussurrou Bastian carinhosamente ao cavalo.
Graham se ergueu sobre as caixas para ver melhor toda a extensão da ponte. Ela se iniciava imponente, com a madeira incrivelmente firme pela extensão de uns 6 metros e então começava a afundar para dentro das águas escuras. Partida ao meio, sem nem sinal dela até a outra margem do rio. Pouco mais de 1 km separava as duas extremidades da ponte. Lá do outro lado Graham avistava o que imaginava que fosse a outra parte dela, cercada pelo verde e grandes montanhas ao fundo.
Ali estava ele, diante da ponte que tantos reis não conseguiram nem chegar perto de desvendar seu segredo. Uma forte rajada de vento varreu seus cabelos para o lado e as águas começaram a correr forte. 

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