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O Reino Oculto - Capítulo 4


 Se levantou e saiu andando às cegas, fugindo da catástrofe que ele mesmo trouxera até sua família. Fugiu para que ela não o sugasse direto ao desespero.


CAPÍTULO 4

Acordou zonzo com a luz do sol entrando pelas copas das árvores e o chão se movendo embaixo de si. Levou alguns longos segundos para perceber que seus braços estavam esticados para trás de sua cabeça, levou outros segundos para perceber que estava sendo arrastado por alguém.
- Ei! Me larga!
- Valha-me, Deus!
Graham sentou-se no chão livrando-se das mãos de um velho assustado que agora apertava um chapéu esfarrapado contra o peito, realizando o sinal da cruz.
- Achei que estivesse morto, diabo!
Graham fitou o velho que pôs o chapéu sobre os cabelos desgrenhados e sujos.
- Gostaria de estar - resmungou tentando se colocar de pé. Vários ossos da sua costelas doeram e teve mais noção do sangue seco em seu rosto, proveniente de seu nariz quebrado. Olhou para as roupas em seu próprio corpo, manchadas de lama e sangue de James. Dormira na beira da estrada depois de andar por horas até cair desmaiado, fosse por sono ou fosse por fome. Não podia culpar o velho por achar que ele estava morto.
- Você vive aqui perto? Tem para onde ir?
Graham olhou do velho para a carroça parada logo a frente, cheia de tranqueiras na parte de trás. Na frente, um cavalo forte que parecia aguentar ainda muitos caminhos por vir. As palavras de Lena ecoaram em sua cabeça. “Levante-se e suma de nossas vidas”.
- Não.
- Nesse caso, suba na carroça. Tem um rio ali mais para frente, você precisa se lavar. Você pode me chamar de Bastian. E como eu chamo você?
- Graham - disse arrastando os passos até a carroça.
Estava tão fraco de fome que mal conseguiu subir na parte de trás e largou-se no único espaço entre as caixas fechadas que haviam ali. Bastian, já sentado com as rédeas na mão, olhou para trás observando Graham com curiosidade.
- Tem certeza que não vai cair morto logo? Eu ia vender seu cadáver, sabe, ia me render algumas moedas.
- Não pretendo morrer - respondeu de imediato.
Dando de ombros, virou-se para frente. Ficaram em silêncio durante o trajeto que durou uns cinco minutos. O sacolejo da carroça na parte de trás deixava Graham enjoado, estava fraco demais para aguentar. Assim que a carroça parou se largou contra o chão e engatinhou até a margem do rio. A água estava extremamente gelada e foi um choque para sua garganta assim que a bebeu, mas nem ligou, apenas bebeu toda a água que pode. Poderiam ser 2 ou 10 litros, talvez meio rio, ele não saberia dizer.
- Vá com calma, filho, pode morrer afogado desse jeito - Bastian observava com um olhar um tanto preocupado.
Graham deitou no gramado respirando o ar com força. Seu peito queimava e sentiu-se um pouco mais vivo. Com a ajuda de Bastian, Graham tirou a camisa suja de lama e sangue seco e lavou no rio, lavou seu rosto, lavou seu corpo por inteiro. Tremendo de frio, vestiu blusa e calções que Bastian retirou de uma das caixas da carroça e insistiu veementemente que ele pegasse.
Sentou-se numa das pedras próximas ao rio.
- Se importa se eu perguntar de quem era essa roupa?
- De alguém que não precisa mais.
- Você quer dizer, de alguém que você vendeu o cadáver? - desejou que seu tom tivesse soado um pouco descontraído.
Bastian encarou Graham por alguns momentos. A seriedade e a dureza naqueles olhos azuis e cansados incomodou um pouco a Graham, desejou que o velho falasse algo logo.
- Não - disse simplesmente numa voz sem emoção. - E não tenho mais interesse em vendê-lo, se é isso o que lhe preocupa. Está claramente vivo.
Respirou um tanto aliviado.
- Mas quem anda comprando cadáveres por aqui? Esse tipo de comércio não seria ilegal?
- Por aqui? Ninguém. Se é ilegal? Apenas para os tolos cegos e ignorantes.
Graham ficou encarando o chão pensativo por alguns minutos enquanto Bastian voltava para sua carroça e vasculhava a procura de algo. O velho parecia maluco, ainda mais após a última afirmação. Seus pensamentos, desde a hora que pusera os olhos no cavalo e na carroça do velho, era de se livrar dele e partir com a carroça, que parecia ter toda sorte de coisas escondida naquelas caixas. Por outro lado, sendo maluco ou não, ele o ajudara lhe trazendo até o rio quando não conseguia nem dar dois passos sozinhos, quem diria se lavar. E lhe dera roupas limpas. Velhas e gastas aqui e ali, mas era melhor do que as imundas de sangue. Só não entendia porque ele estava o ajudando.
Graham foi tirado de seus pensamentos quando Bastian apareceu novamente na sua frente, trazendo meio pão nas mãos. Graham agradeceu calorosamente e depois de duas dentadas agradeceu novamente de boca cheia. Bastian apenas sorriu e aguardou em silêncio enquanto Graham devorava o alimento. Quando restou apenas migalhas em sua mãos Graham encarou o velho sem saber exatamente o que falar.
- Por que está me ajudando?
Bastian ajeitou a postura e sorriu novamente.
- Tive meus dias e meus motivos para viver somente para mim mesmo. Estou velho agora e cheio de amarguras. Um velho pode viver seus últimos dias nessa terra tentando fazer algo de bom, não? Mesmo quando isso inclui resgatar homens que não tem para onde ir, dormindo na beira da estrada.
- Isso pode acabar te matando um dia. Chamando homens desconhecidos para subir na sua carroça.
- Se assim os deuses quiserem, que seja. E não é todo dia que o corpo que você arrasta acaba se mostrando alguém que passa por problemas e que precisa de ajuda. Talvez os deuses tenham me colocado em seu caminho por algum motivo.
- Alguém que passa por problemas?
O velho riu.
- Não irei perguntar o que o levou a dormir na estrada, nem de quem era o sangue em suas roupas, mas se quiser alguém para conversar estou bem aqui. A dor e o vazio estampado em seu rosto quando perguntei se tinha pra onde ir, reconheço à quilômetros de distância.
Graham encarou Bastian sem dizer nada. A bondade cega no olhar do velho deixou um aperto no coração de Graham, pois o lembrava de James, que sempre fora o irmão mais bondoso e atencioso com quem quer que fosse, nunca carregando mágoas. No fundo, Graham achava que o irmão, onde quer que estivesse, estaria o perdoando também.
- Talvez não esteja pronto para falar sobre isso agora - disse Bastian quebrando o silêncio. - O tempo está passando e preciso ir andando, tenho assuntos para tratar em outros lugares. Se quiser tem espaço para mais um na parte de trás da carroça. Sabe, ando precisando de um ajudante também, a idade está avançando mais rápido do que eu esperava.
Graham passou a mão pelos cabelos já secos. Não tinha para onde ir, muito menos onde dormir ou o que comer. Sua família o odiava e não o queria por perto. Sem querer pensar muito sobre o assunto, acenou em silêncio, porém, decidido.
- Ótimo! - Bastian esfregou as mãos animadamente. - Vai ser ótimo ter com quem conversar.
Bastian voltou alegremente para as rédeas da carroça. Graham apanhou suas roupas que estavam estendidas sobre uma pedra sob o sol. A camisa não havia secado completamente ainda, porém a dobrou com cuidado e colocou junto a calça. Teria que guardar essa muda com cuidado, era tudo o que ele possuía para passar o que quer que viesse pela frente. Caminhando em direção a carroça sentiu algumas pedrinhas no bolso da calça. Ao tentar se livrar percebeu que não eram pedrinhas, e sim, moedas. Era como se uma mão de ferro apertasse seu coração ao lembrar da expressão de Lena ao atirar aquelas moedas contra seu peito. Caminhou até Bastian.
- Creio que eu tenha dado mais prejuízo do que o lucro imaginado inicialmente. Tome essas moedas, por eu ainda estar vivo.

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