Posts Home

Ver mais posts...

Dica de leitura para 2019 - O Reino Oculto


Nada melhor do que iniciar o ano com o pé direito, lendo histórias novas, comprando livros novos, conhecendo novos autores e - por que não? - dando início a novos projetos.

Assim como ler, escrever também sempre foi como uma terapia e paixão para mim. E decidi realmente levar a sério e por as coisas "no papel" de fato. Inspirada na história de Gabriel Picolo, que escrevi aqui, com seus 365 days of Doodle, decidi dar continuidade a minha história, que já venho desenvolvendo há anos em segundo plano na minha cabeça, me dedicar à ela durante todos os dias e postar aqui um capítulo por semana, de acordo com o possível.

Por isso, essa é a dica para esse ano, uma leitura com personagens e enredo originais. Uma história que contará os caminhos que um homem tomou indo de encontro à tragédia. Apegado à um passado que nem ele mesmo sabia ser verdadeiro ou não, sem saber qual a real profundidade que ele carregava. Deixando a ganância moldar sua vida, fechando os olhos para as coisas que realmente importavam. História de um homem que chegou perto de entender toda a verdade, mas que se deixou levar pelo caminho mais fácil.

Sem me alongar e revelar muito mais sobre essa história e toda a fantasia que permeia ela, deixo aqui o primeiro capítulo, que apenas arranha a superfície de uma história grandiosa.

CAPÍTULO 1 


Desde que era pequeno ouvia dizer como sua família um dia fora rica e influente. Cresceu com seu pai contando histórias da “era de ouro” de seus antepassados, do grande castelo que um dia possuíram. Histórias de grandes conquistas e histórias de grandes banquetes ao lado do rei. Essas eram suas histórias favoritas e seu pai nunca cansava de lhe contar durante a noite, antes de colocá-lo para dormir. Porém, a única coisa que sobrara dessa era fora um quadro com uma moldura ornamentada em prata que seu pai um dia lhe dera de presente. Guardava como seu tesouro, uma pequena lembrança de uma família que ele nunca conhecera.
Graham estava de pé na cozinha observando o quadro em suas mãos, perdido em pensamentos sobre seu velho pai, encarando uma velha senhora de feições não muito agradáveis, bem vestida e com um olhar pálido.
- Você irá me desculpar por isso - disse limpando a grossa camada de poeira que cobria o quadro com a manga da blusa. - E eles irão me agradecer. Talvez não tão rápido, mas sei que irão.
- O que você está fazendo aí?
Graham olhou assustado para a porta. Seu irmão mais novo, James, havia chegado com uma braçada de lenha. Respirando pesado devido ao peso que carregava. Com passos largos, espalhando lama pela pequena cozinha, soltou a lenha debaixo do fogão e se aproximou de Graham, olhando o quadro por cima do ombro do irmão.
- Olhando esse quadro velho de novo? Por que você não vem nos ajudar? Logo vai anoitecer.
- Não é apenas um quadro velho, James. É a pintura da... bisavó da nossa bisavó, eu acho.
- É tão velho que você nem tem certeza para quem está olhando - seus olhos se demoraram na prata. - Te conheço muito bem, irmão. Sei bem que você não está aqui em pé dedicando seu tempo aos seus amados antepassados.
- "Meus amados antepassados"? Eles eram sua família também, não se lembra? Meu sangue, mesmo sangue que corre em suas veias - disse furioso, batendo no braço do irmão.
- Sim. E eu os respeito. Mas este é o presente irmão. - disse estendendo a mão em direção a cozinha enlameada, com algumas cebolas e cenouras em cima da mesa, ao lado de um pão velho. - Pare de viver no passado e construa seu presente conosco. Sua esposa e seu filho precisam de você. Seus irmãos precisam de você. Especialmente quando ainda há várias braçadas de lenha para carregar. Venha nos ajudar antes que anoiteça.
Com um sorriso sincero e um aperto carinhoso no braço do irmão, James voltou para fora. Ele sempre fora o que menos entendia e isso deixava Graham frustrado. Ele achava mesmo que ele não sabia que sua família precisava dele? É claro que tinha consciência disso. Era o irmão mais velho, com uma jovem esposa e um menino de 5 anos. Encarregado pelos irmãos desde que seus pais morreram assassinados por cavaleiros do rei. Será que eles não entendiam? Se sua família ainda fosse rica e influente como fora um dia, isso nunca teria acontecido. Aqueles cavaleiros não teriam passados por eles como se fossem nada, não teriam deixado seus cadáveres para trás. Quando o nome de sua família carregava tanto ouro quanto reconhecimento, eles sentavam ao lado de reis em banquetes. Viviam em um castelo ao invés de uma barraca. Tinham servos e governavam cidades ao invés de meter as botas na lama e se contentar com uma sopa rala.
Eram todos tolos e fracos, e um dia iriam se ajoelhar para agradecer pela glória que ele traria para casa, pela vida que daria ao seu filho ao lado do rei, com as melhores armaduras e se fartando nos banquetes. Pois ele era o único com coragem o suficiente para ao menos tentar recuperar a antiga vida que sua família levava.
E essa noite, seus irmãos iriam agradecer pela comida que ele traria. Estava cansado de sopas ralas e sabia que todos também estavam. Enfiou o quadro numa bolsa e jogou os cordões no ombro. Um choro de criança ecoou no fundo da casa e ouviu sua mulher entoar uma canção para acalmar o filho. Respirando fundo e se sentindo determinado, saiu porta a fora.
Brian, seu irmão mais velho, estava cortando a lenha enquanto conversava com James, de cabeça baixa aos sussurros. Sem dizer uma palavra seguiu deixando seus irmãos para trás, tomando a estrada que levava à cidade com o frio cortando contra suas vestes gastas.
As ruas estavam cada vez mais cheia e cada vez mais fedida. A pobreza estava se espalhando de uma forma que ele nunca tinha visto. Apertou a corda de sua bolsa contra seu corpo, como se estivesse com medo de que roubassem seu único item de valor que lhe restara. Apertou o passo para entrar numa hospedaria bem conhecida por todos ali, onde vários pedintes estavam sendo enxotados sem dó por um homem corpulento, que logo voltou para o galpão ao lado, cuidando dos cavalos.
Com todas as mesas lotadas, havia uma pequena aglomeração de gente ali dentro se aconchegando ao fogo da lareira nos fundos, em pé buscando o calor do fogo. Mesmo com aquele emaranhado de gente, podia-se ver com facilidade as capas grossas e vermelhas caindo sobre as armaduras que brilhavam à luz do fogo. As vestes daqueles cavaleiros faziam um contraste escandaloso contra os trapos puídos que todos usavam por ali. Graham desejou com toda força ser um daqueles dois cavaleiros, que ocupavam a mesa mais próxima da lareira. Fechou a porta da hospedaria e sentou em um dos únicos lugares vagos, longe da lareira numa banqueta bamba ao balcão, e sentiu o cheiro de comida golpear seu estômago vazio. Jurou que a mesa ao lado poderia ouvir o som que ele fazia. Talvez a dona do estabelecimento tivesse ouvido, pois, de má vontade, se aproximou olhando Graham de cima a baixo.
- O que o traz aqui, Horroway? - notou um certo desprezo na última palavra, que fora dita alto o bastante para que todo o bar ouvisse e parassem para olhá-lo com um certo desprezo também.
Um fio de ódio se acendeu dentro dele ao ver a reação daquelas pessoas ao ouvirem seu nome.
- O que há para comer essa noite?
- Pão mofado, cerveja e sopa de cebola. Para quem me mostrar algumas boas moedas - disse lhe dando as costas, alcançando dois copos empoeirados.
- Só isso? Não mais do que tenho em casa - a decepção saiu num tom mais alto que ele pretendia.
- Então sugiro que volte para o buraco de onde saiu. Você está ocupando lugar aí - disse sem se virar, enchendo os copos com cerveja de um velho barril.
Graham ficou sentado sem se mover, observando as costas da mulher enquanto ela saia para levar a cerveja para os dois cavaleiros. Ele não trocaria seu fino quadro com bordas de prata por pão mofado. Isso ele já tinha em casa. Puxou o quadro para mais perto, abraçando-o como se fosse uma criança com medo de que roubassem seu brinquedo favorito, enquanto observava os dois cavaleiros na mesa, que riam alto ostentando uma quantidade de pão - que não pareciam mofados - maior do que as outras mesas e um cordeiro fumegante. Gillian, a dona da hospedaria, estava em pé ao lado da mesa, rindo e passando a mão no ombro de um dos guardas, que beirava uns dois metros de altura, chutou Graham. Seu amigo ao lado, ligeiramente mais baixo, ambos com suas armaduras brilhantes e capas vermelhas, sentados ao fogo, comendo o que ninguém mais tinha para comer. Quando deu por si, estava se aproximando da mesa a passos lentos, ainda agarrado ao quadro. Os cavaleiros pararam de rir ao notar sua presença. O maior deles, deu um sorriso debochado para o companheiro e se virou para a mulher.
- Muito bem, Gilly, vá limpar a cozinha - deu um tapa na bunda da mulher que saiu imediatamente - Parece que nossa comida já está começando a atrair os ratos.
Os dois riram de forma estridente.
- Eu tenho uma ofer... - sua voz falhou ao ver que todo o bar tinha olhos nele.
O guarda levou a mão teatralmente ao ouvido.
- O que disse?
Graham se endireitou, baixando as mãos e estufando o peito.
- Eu tenho uma oferta para vocês.
A risada explodiu no bar inteiro.
- O que um Horroway teria para nos oferecer?
- Prata - manteve sua voz firme, apertando o cordão da bolsa.
O cavaleiro se endireitou na cadeira para encarar Graham com uma expressão de leve interesse e diversão.
- Prata, você diz, é? - acariciou a barba com a mão enquanto olhava para o companheiro - O homem tem prata. Em troca de que, eu me pergunto.
- Comida. - disse resoluto. Olhou para os pães e a carne. - Comida decente ou dinheiro para comprar em outro lugar.
O cavaleiro bebeu um grande gole de sua cerveja, parecendo pensativo.
- Muito nobre. Afinal, quem não precisa de comida, não é, Thomas? - disse cortando um grande pedaço de carne. Levando-o à boca, se virou para seu companheiro. - Pensei que ele me pediria algum serviço envolvendo assassinar alguém ou algo assim, afinal, estamos com um certo gosto para isso hoje a noite, não é?
A mesa explodiu em risadas novamente. Metade do bar, sem pensar duas vezes, se levantou e saiu sem olhar para trás, a outra metade ficou com um sorriso malicioso no rosto, esperando algo acontecer.
- E onde está a prata?
Graham amarrou a cara tentando ignorar a fome enlouquecida que sentia misturada com a raiva. Sua cabeça estava girando e perdendo a paciência. Empurrou a bolsa na mão do cavaleiro.
- Aqui está. É autêntica, não é porcaria. Cavaleiros, eu tenho uma criança e esposa para alimentar.
- O fato é que nós sabemos muito bem quem você é, Graham Harroway - disse empurrando a bolsa na mesa para seu companheiro abrir e se levantou - Sabemos a vergonha que você é para a sua merda de casa.
- Mas que porra é essa? - Thomas se levantou lançando a cadeira para trás, jogando o quadro na mesa como se fosse algo infectado. - Essa é a sua prata? Acabe com essa palhaçada, Bard.
Bard pegou o quadro e riu.
- Foi por essa merda que você veio nos incomodar? Acha que somos idiotas?
- Isso tem valor - a voz de Graham tremia de fúria - Se não querem, me devolva e tento vender para outra pessoa.
- Ninguém quer você incomodando com essas porcarias por aí. Esse quadro vai para o lugar onde ele pertence - disse jogando o quadro no fogo da lareira.
- Seus malditos idiotas! Por que fizeram isso?
Sua fúria explodiu antes que pudesse pensar claramente, assim como seu nariz. Caiu de costas na mesa, zonzo. Os ocupantes saíram aos tropeços imediatamente.
- Vou mostrar a você quem é o maldito idiota.
E sentiu dois chutes no estômago, vindo de Thomas. Bard o levantou antes que pudesse recuperar o ar e acertou uma cabeçada que tirou Graham de si. Sentiu o chão bater contra seu corpo. Com o rosto quente de sangue, tentou se arrastar para a porta.
- Acho que você não está em condições de andar. Teremos que te acompanhar até em casa - disse Bard com um sorriso malicioso.
Graham foi arrastado pela lama até o cavalo de Bard. Lágrimas de vergonha e raiva se misturavam com o sangue escorrendo em seu rosto e pingavam no chão enquanto era carregado. Jogado em cima daquele cavalo, sentindo muita dor em sua cabeça e abdômen, especialmente em seu nariz quebrado, pensou em resistir, se jogar do cavalo, levantar e lutar, mas, não encontrou força nem coragem para isso. Se sentiu idiota e covarde, sendo carregado para sua casa daquela forma. Thomas vinha galopando logo atrás, encarando Graham com desprezo. O que seus irmãos diriam quando chegasse em casa? O que esses homens fariam?

Nenhum comentário:

Postar um comentário